Blog do Pablo Miyazawa

Arquivo : janeiro 2015

O post final que vale por duas mensagens: “Muito obrigado” e “até breve”
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Pablo Miyazawa

Tudo o que é bom um dia acaba.

No caso deste blog, hoje é este dia. Este é o último post que publicarei neste espaço.

Foram pouco mais de 100 dias (109 para ser exato) em que consegui fazer algo que me era raro como jornalista: escrever sem muito critério, sem prazos, seguindo meu próprio ritmo. Escolhia meus temas como escolhia a camiseta que vestiria no dia: baseado no meu humor, na minha vontade e nos acontecimentos ao meu redor. Gastei muito mais tempo com essa missão do que eu imaginava ser possível. Se disser que escrevi mais nesses últimos quatro meses do que nos últimos quatro anos, não é exagero. Fazer um blog é tão ou mais difícil quanto me disseram que seria. Talvez até um pouco mais.

Encerro este trabalho para começar imediatamente um novo desafio profissional. A questão é que cedo ou tarde o novo trabalho acabaria conflitando com o meu trabalho neste blog no UOL. Mas mesmo que fosse viável profissionalmente, não sei se conseguiria manter um ritmo adequado de escrita ao mesmo tempo em que coloco o novo projeto em pé. Dizem que quem faz um blog muito bom é porque não está fazendo direito o trabalho “principal”. No meu caso, o blog foi durante um bom tempo o principal merecedor de minha atenção. A partir de agora, não poderá ser mais. Então me dou ao direito de parar de jogar enquanto ainda me sinto vencedor. Deixo meus posts que fiz aqui para a posteridade, para serem reencontrados e lidos por quem puder se interessar. Em um âmbito mais pessoal, esses textos servem como um retrato de uma fase bem específica e interessante da minha vida da qual vou adorar me recordar no futuro.

Estou avisando no meu Twitter (@pablomiyazawa) sobre minhas novas andanças profissionais. Por enquanto, deixo aqui um até breve (breve mesmo) e um muito obrigado por tantas gentilezas – as visitas, as leituras, os compartilhamentos, os comentários e críticas. Foi divertido e valeu a pena cada segundo. Chegou a hora de eu me divertir de um jeito diferente. E eu espero te ver por lá.

Um forte abraço,
Pablo Miyazawa


“Whiplash” é uma chicotada que fará você perder a vontade de ser músico
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Pablo Miyazawa

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Andrew (Miles Teller) espanca e é espancado por Fletcher (J.K. Simmons). Foto: Divulgação

“Whiplash”, do diretor novato Damien Chazelle, foi indicado a cinco prêmios Oscar, incluindo Melhor Filme. Não vai levar esse (está entre “Boyhood”, “Birdman” e, correndo por fora, “O Grande Hotel Budapeste”). Mas pode muito bem abocanhar o de Melhor Roteiro Adaptado (do próprio Chazelle, que não foi indicado a Melhor Diretor). Já o de troféu de Melhor Ator Coadjuvante para J.K. Simmons é praticamente uma barbada.

Você deve conhecê-lo como o J.J.Jameson da primeira trilogia “Homem-Aranha”. O público norte-americano o conhece melhor ainda como o garoto-propaganda de uma companhia de seguros, a Farmers Insurance. De qualquer maneira, Simmons é um ator performático e enérgico, que parece sempre desempenhar o papel do homem durão que lá no fundo tem um coração mole. Não é o caso do Terence Fletcher que ele criou em “Whiplash” – pelo menos a parte do coração mole.

Miles Teller (de “Divergente”) interpreta o protagonista, Andrew, um estudante de música antissocial e obcecado pela ideia de se tornar o maior baterista de jazz do mundo. Em filmes que giram em torno de músicos e suas performances, é normal ver atores se esforçando para fingir que dominam os instrumentos. Não é o caso de Teller, que realmente toca bateria desde os 15 anos. O detalhe é importante e sem dúvidas ajuda a trazer mais autenticidade ao personagem.

Fletcher é professor em um conservatório e enxerga algum talento em Andrew. Para levar o rapaz a um novo patamar técnico, o mestre dá início a uma sessão de assédio moral difícil de se imaginar na vida real. Quem já sofreu com abusos de autoridade certamente vai se identificar: é uma verdadeira tortura psicológica, com direito a gritos, insultos gratuitos, humilhações públicas, cadeiras arremessadas e tapas na cara. Fletcher não deixa Andrew em paz, e fica difícil dizer se faz isso por prazer sádico ou se realmente acha que o bullying ajudará o garoto a chegar longe. É deprimente de se ver, mas é impossível tirar os olhos. Não dá para revelar mais sem estragar a história, mas basta dizer que as porradas que Andrew leva de Fletcher acabam gerando efeitos diversos e consequências tragicômicas. A propósito, “Whiplash” não é só o nome de uma música que toca constantemente no filme – o “chicote” em questão representa também a escravidão a que o mestre submete o aluno.

Na parte musical, o filme capricha… nas imprecisões técnicas. Críticos reclamaram do modo equivocado e competitivo com que “Whiplash” apresenta o jazz, e também a maneira agressiva e quase autopunitiva com que Andrew pratica a bateria, como se o fato de sangrar tocando o fizesse ser um músico melhor (ele também jamais utiliza um metrônomo em seus treinos, uma ousadia que um estudante dedicado jamais faria). Também há incongruências históricas no roteiro, como o caso (relatado no filme) em que o mítico saxofonista Charlie “Bird” Parker quase foi golpeado na cabeça por um prato arremessado pelo baterista Jo Jones (na verdade, o objeto acertou-lhe o pé, e nem foi de modo tão agressivo assim).

Também é questionável o fato de o ídolo de Andrew no filme ser o controverso jazzista Buddy Rich, conhecido pelo temperamento difícil e pela maneira animalesca com que tirava sons do instrumento. Não por coincidência, Rich chegou a participar do programa dos Muppets e até participou de um duelo de bateria com o Animal.

Fletcher maltrata Andrew para que ele supostamente se torne um músico melhor. Na prática, porém, não funciona. O que o baterista menos faz a longo do filme é tocar música. Ele maltrata a bateria até as mãos sangrarem, com um empenho tão mecânico que extingue qualquer lampejo de feeling. Andrew não interpreta as canções, mas as reproduz amargamente, carregado de tensão, sem esboçar nenhum prazer. A exceção só se dá no momento em que ele se permite improvisar – mas até ali o caminho foi longo e dolorido. Essa é a lição mais importantes que “Whiplash” oferece aos músicos e pretendentes: sem prazer e diversão, sobra sofrimento. E é aí que a música perde o propósito.


Quando uma imagem vale mais do que mil tiros
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Pablo Miyazawa

 

 

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Cartunistas de todo o mundo prestaram homenagens aos mortos no atentado à revista de humor Charlie Hebdo, hoje, em Paris. Doze pessoas foram assassinadas, entre elas os cartunistas Charb, Cabou, Tignous, além de Georges Wolinski, gênio veterano que influenciou todo artista que se aventurou pelos quadrinhos de humor – e, consequentemente, todo mundo que leu quadrinhos de humor.

Estilos diferentes à parte, é possível sentir uma linha condutora comum nas ilustrações abaixo: todas reforçam o absurdo desproporcional de se confrontar a liberdade de expressão com o uso da violência sangrenta. Até quando? Que ano é hoje mesmo?

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Arnaldo Branco

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Bernardo Erlich

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Phillipe Geluck

 

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David Pope

 

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Jean Jullien

 

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Vagelis Papavasiliou

 

Ruben
Ruben Oppenheimer

 

ixene
Ixène

 

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Dave Brown

 

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Ann Telnaes

 

Na!
Na! Dessinateur

 

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Ygreck

 

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Gary Varvel


Você precisa conhecer Portland, a cidade onde jovens vão para se aposentar
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Pablo Miyazawa

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Carrie Brownstein e Fred Armisen curtem a vida louca em Portland – ou Portlândia. (Divulgação)

Na próxima quinta, 8 de janeiro, estreia a quinta temporada da série “Portlandia”.

Ela ainda é inédita na TV brasileira, mas atualmente isso não faz diferença alguma. É fácil de assistir por meio de programas de streaming ou mesmo via download (ilegal, é verdade).

Provavelmente, é uma das melhores comédias em atividade da TV norte-americana. Só que é tão surreal e tão dependente de piadas internas que não é o tipo de produto que a agrada a qualquer telespectador. Está longe de ser uma sitcom glamurosa e “amigável” como “Friends” ou “How I Met Your Mother”. Também não é o tipo de comédia surrealista ao estilo “Parks & Recreation” e “Arrested Development”, com personagens fixos e uma trama persistente. Está mais para a sátira do absurdo do “Saturday Night Live”, ou ainda, para os vídeos independentes de humor que andam pipocando pelo YouTube. “Portlandia” basicamente é uma coletânea de esquetes bizarros com a cidade de Portland como pano de fundo. Na verdade, Portland é a principal protagonista do programa.

O slogan que a série concedeu à cidade define muito bem a vibração local: “A cidade onde os jovens vão para se aposentar”. O slogan “oficial” é diferente, ainda que complementar: “Keep Portland weird”, ou “mantenha Portland esquisita”. Somadas as duas frases, o resultado não poderia ser mais adequado. Portland é mesmo esquisita e diferente do que se entende tipicamente como uma cidade norte-americana. É relativamente silenciosa e tranquila, é apinhada de freaks de todas as espécies e cultiva uma vibe riponga-alternativa que vai do apreço por alimentos orgânicos ao desprezo por meios de transporte motorizados.

Portland também é a melhor cidade dos Estados Unidos para não se fazer nada com muita classe. São vários os adjetivos possíveis – a capital nacional das bicicletas, a capital das microcervejarias, a capital do food truck, a capital do donut decorado com tiras de bacon, a capital das lojas de discos de vinil, a capital da chuva, a cidade que parou nos anos 90. Parece até que o termo “hipster” foi criado para homenagear o personagem médio de Portland. Comer e beber bem é uma obsessão local, assim como a liberdade de expressão por meio de roupas, penteados e atitudes – passear de bike sem roupa é mais comum do que se imagina. Outro detalhe interessante é que o estado do Oregon, do qual Portland é a maior cidade, não cobra impostos de circulação de mercadorias. A taxa de desemprego é alta para os padrões do país, o que não impede muitos habitantes de grandes metrópoles se mudarem para lá com o objetivo de mudar de vida – ou de não fazer mais nada da vida.

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Carrie e Fred são Toni e Candace, as donas da Livraria Feminista de Portlândia. (Divulgação)

É nesse cenário fantástico que “Portlandia” circula e tira sua inspiração para historinhas que devem ter sido inspiradas pela obra do cineasta surrealista Luis Buñuel. Às vezes a série tenta manter os pés no chão para tirar sarro do estilo de vida local de um jeito inteligente e descolado. Mesmo assim, está muito mais para zoeira do que para crítica social. Na maioria das vezes a coisa descamba para o nonsense, e é aí que o programa brilha. Todos os personagens são interpretados por esses dois da foto acima: Carrie Brownstein, também conhecida como uma das guitarristas do extinto trio Sleater-Kinney (que acabou de voltar à atividade); e Fred Armisen, que por anos fez parte do elenco do “Saturday Night Live”. A química da dupla é perfeita, principalmente quando interpretam versões dementes deles mesmos. E quando criam personagens, muitos recorrentes, eles parecem se divertir muito com o processo.

Passei quatro dias em Portland no ano passado. Já assistia à série, mas a visita turística teve sabor de primeira vez. Admito que o lugar que conheci não tinha muito daquele absurdo colorido e histérico exibido em “Portlandia”. Na verdade parecia até normal demais, com um centro comercial agitado, muita gente de bicicleta (mas muitos carros nas ruas) e caras de terno e gravata transitando ao lado de mendigos, hippies, roqueiros e vítimas da moda. E, estranhamente, sem um único dia de chuva (lá chove em nove meses do ano). A vibração remete a de uma cidade pequena, ainda que isso esteja mudando aos poucos: o sucesso de “Portlandia” deu início a um incômodo processo de “gentrificação” da cidade.

Mas as semelhanças com “Portlandia” existem, e estão em tudo o que faz da Portland real “weird” – e é isso também o que a torna tão divertida e aconchegante. É o lugar perfeito para quem gosta apenas de passear sem pressa e sem obrigações turísticas. Dá vontade de subir em uma bicicleta e circular o dia inteiro pelas lojas de discos abarrotadas, cafés descolados, praças de food trucks, cervejarias artesanais, livrarias gigantescas, parques esvaziados e clubes de música ao vivo. Há tanto o que se ver e fazer que é até injusto dizer que quem vive ali não faz nada. E sim, aquele donut com bacon do Voodoo Doughnuts é algo grotesco – mas é realmente imperdível.

A ideia de ir para Portland para se aposentar? Ela até que faz sentido.


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