Blog do Pablo Miyazawa

Arquivo : outubro 2014

Peter Hook é um cara como eu e você (e fundou o Joy Division e o New Order)
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Pablo Miyazawa

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Peter Hook pretende tocar todos os discos do New Order nos próximos anos. (Foto: Reprodução/Facebook)

Peter Hook é uma figura.

O lendário membro-fundador do Joy Division e do New Order está em São Paulo para um show nesta noite de sexta, 31 de outubro. Dessa vez, Hook toca no Clash Club com sua banda The Light, dois discos do New Order na íntegra: “Lowlife” e “Brotherhood”. Faz anos que a brincadeira temática é comum à rotina do baixista de 58 anos. Começou fazendo shows apenas com músicas do Joy Division em 2011. No ano passado, Hook tocou os dois primeiros álbuns do New Order do começo ao fim: “Movement” e “Power, Corruption and Lies”. E em todas essas turnês, ele passou pelo Brasil.

Na tarde de sexta-feira, os termômetros marcavam mais de 30º. Hook estava diante de uma mesinha em um quarto abafado onde não cabem mais de 70 pessoas – havia pelo menos 50 apinhadas lá dentro, encarando o artista britânico. Os quatro ventiladores ligados quase não davam conta da temperatura alta, mas o clima estava aceitável – escondido em uma viela da Vila Madalena, o espaço de cerca de 30 metros quadrados talvez seja o menor local a abrigar shows de rock profissionais em São Paulo. Aquele foi o palco de uma entrevista coletiva para fãs e sem a imprensa, com mediação (do jornalista Alexandre Matias) e perguntas enviadas previamente. De bermuda e chinelos e cabelo raspado na lateral, Hook respondia a perguntas de fãs sentados no chão, com discos em punho e vestidos com camisetas das duas bandas que ajudou a fundar.

“Eles nem se esforçam, só ficam tocando a mesma merda, uma vez atrás da outra”, Hook falou, justificando o projeto atual de tocar os discos antigos na íntegra e criticando o atual estado do New Order sem ele. “Minha mulher disse que eu tenho agradecer às estrelas de não estar mais na banda. Porque eu ainda estaria frustrado.”

Hook não tem nenhum freio quando se trata de falar o que pensa – principalmente quando o tema é os bastidores de seus ex-grupos. Durante quase uma hora, respondeu sem vacilar a perguntas sobre a saída dele do New Order em 2007 e o eterno conflito verbal e judicial com o ex-parceiro Bernard Sumner. Hook definiu a situação como um casamento que acabou mal: “Pense comigo. Você se divorciou, e se odeiam. Acabaram de dividir o cachorro no meio. E alguém te pergunta: ‘Você acha que vão voltar?’ É mais ou menos assim que funciona”, comparou. “E o nosso divórcio foi bem ruim. Quando as duas partes se comprometem e concordam, está tudo bem, e quem sabe podem trabalhar junto novamente. Mas não foi o caso.”

O baixista comentou sobre o modo como Sumner continua a tratar o passado entre os dois. “Ele escreveu um livro só para falar como me demitiu da banda. É uma coisa horrível, porque ele não escreveu sobre as coisas que fez tão bem – música, sucesso…  Esse cara, o Bernard, praticamente inventou o synth pop britânico. E ainda sssim, ele não fala nada isso no livro! É uma loucura! Não acredito que o coautor não falou nada para ele”, Hook disparou a respeito do recém-lançado livro do rival, “Chapter and Verse [New Order, Joy Division and Me]” . “Eu conseguiria escrever um ótimo livro do New Order”, brincou.

Em outro momento, relembrou a fase inicial da carreira com o Joy Division, que encerrou as atividades quando o vocalista Ian Curtis se suicidou, em 1980. “O abalo na nossa confiança foi grande. Foi difícil voltar a trabalhar”, disse, relembrando o recomeço como New Order e especulando sobre o que teria acontecido musicalmente com a banda se o cantor não tivesse morrido. “Nossa música já estava se tornando dançante e incorporava elementos eletrônicos. Provavelmente não seria muito diferente [do que o New Order acabou fazendo].”

Já sobre a escolha de quem seria a voz do já rebatizado New Order, Hook não perdeu a chance de alfinetar o ex-parceiro e amigo de infância. “Não queríamos pegar alguém que já estivesse estabelecido e tivesse experiência”, disse. “Mas quando Bernard se tornou o vocalista, o relacionamento dele com o resto da banda mudou. Porque ele era o cantor. E todos nós sabemos que os cantores são filhos da puta [bastards].”

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Peter Hook simplão: água, bermuda e chinelos. (Foto: Pablo Miyazawa)

Hook entrou no mundo da música na metade dos anos 70 e resistiu fazendo música desde então. Hoje, alega o desinteresse do público para justificar a opção de não gravar novos álbuns de inéditas  “Antigamente se vendia muitos discos. Você fazia seu trabalho e era pago pra isso. E você seguia em frente na vida porque vendia discos. E daí, de repente, ninguém ligava mais! A gente fica seis meses se matando no estúdio para fazer um disco. E daí, ninguém o compra! Para um músico das antigas, isso é estranho!”

Apesar do ar seco paulistano, Hook estava se divertindo. Brincou com a tradutora, fez caretas, ignorou uma mensagem da filha no celular e deu um conselho torto sobre como ser bem-sucedido na profissão. “A coisa de se estar num grupo é aprender que você está certo e o mundo todo está errado. Senão você não consegue seguir em frente. O que mais me assusta nesses programas de talentos da TV é que as pessoas vão neles para saber: ‘O que você acha de mim?’ E quando se é um grupo, você apenas diz: ‘Foda-se!’ Se você pergunta para as pessoas o que elas acham de você, e elas não concordam com você, você fica arrasado. Para um grupo se dar bem, tem que ser realmente você contra o resto do mundo.”

“Imagine”, ele finalizou a tese, “o que os jurados do X-Factor diriam se vissem hoje uns caras como Ian Curtis, Ian Brown [do Stone Roses], Shaun Rider [do Happy Mondays]. Oh não!”

Quase pedindo desculpas, confessou não ter nenhum herói no contrabaixo e que desenvolveu o jeito de tocar mais focado no visual do que na técnica, citando o estilo “baixo nos joelhos” que caracterizava Paul Simonon do The Clash. Mas acabou mencionando Carol Kaye e Jaco Pastorius como baixistas que admira e destacou as influências de Jack Bruce (Cream) e John Entwistle (The Who), de quem Hook possui dois baixos na coleção particular.

Durante a entrevista, Hook avisou que não daria uma palhinha e quem quisesse vê-lo tocar teria de ir ao show. Ao final, cumpriu a promessa: apenas brincou com um baixo que estava ligado a um amplificador, espancando os dedos nas cordas e as deixando soar. Cercado pelos entrevistadores-agora-fãs, tirou selfies, assinou capas de vinil e CDs e posou para retratos corporativos (o Consulado Britânico organizou o encontro). Quando quase todo mundo já havia tirado um pedacinho de Peter Hook, ele se deu por vencido, decretou o fim do evento e se mandou às pressas, fugindo do sol pela porta afora.


Por que o chefão da Apple sair do armário é relevante para a cultura pop
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Pablo Miyazawa

Tim Cook

Tim Cook, o CEO da Apple, em evento na Califórnia em 27 de outubro. (Foto: Reuters/Lucy Nicholson)

Tim Cook, o principal executivo da Apple, revelou em uma carta aberta que é gay.

O CEO da gigante norte-americana de tecnologia escreveu um artigo publicado hoje no site “Business Week”, no qual se declara “orgulhoso de ser gay” e explica os motivos de comentar publicamente sua orientação sexual. O artigo está aqui e diversas traduções devem aparecer em breve, mas vou me limitar a destacar um parágrafo em específico:

“Eu não me considero um ativista, mas percebo o quanto tenho me beneficiado do sacrifício de outros. Então se escutar que o CEO da Apple é gay pode ajudar alguém que esteja lutando para lidar com quem ele ou ela é, ou trazer conforto para alguém que se sinta sozinho, ou inspirar pessoas a insistirem em sua igualdade, então é válida essa troca por minha própria privacidade.”

Você provavelmente não se lembra de muitos estadistas ou políticos saindo do armário. Essa atitude corajosa e ainda considerada tabu normalmente está relacionada a indivíduos notórios ligados às artes – especialmente atores/atrizes e músicos(as) – e aos esportes. Você dificilmente verá um deputado ou um empresário relevante se assumindo gay após ter se estabelecido como pessoa pública, talvez porque eles sintam que tenham mais a perder do que a ganhar com a revelação. Nas chamadas altas instâncias da sociedade, poder e dinheiro são aspectos cruciais no que diz respeito a alguém querer levantar bandeiras e abrir o jogo em relação à questão da sexualidade. Mas quando se trata de um artista que se assume homossexual (vide os casos de Ellen DeGeneres, Neil Patrick Harris, Ellen Page, Daniela Mercury, Ricky Martin, Rob Halford, Bob Mould, entre tantos outros), parece que existe uma melhor aceitação social do fato. Afinal, é implicitamente esperado que o artista desafie os padrões preconceituosos vigentes.

Voltando a Tim Cook. Ao lado do Google, a Apple hoje é a maior empresa de tecnologia do mundo. Mas o Google é uma ferramenta e uma instituição. A Apple é algo diferente disso: ela fabrica objetos de consumo que existem para caracterizar indivíduos no contexto social. Pessoas compram iPhones, iPads, iPods e MacBooks não apenas porque são máquinas úteis e eficientes, mas também porque são cool e representam certo status social. Essa sempre foi uma das prerrogativas da empresa fundada por Steve Jobs nos anos 1970.

Jobs morreu há três anos e teve como objetivo de vida que o consumidor expressasse sua personalidade por meio das invenções e soluções vendidas pela Apple. Se conseguiu esse intento ou não, ou se essa meta empresarial é positiva, são outras conversas. Mas é inegável que hoje a Apple é mais do que mera fabricante de eletrônicos – é também um personagem ativo e relevante da cultura pop mundial. Seja renovando a maneira como compramos e escutamos música (com o iPod e o iTunes), seja influenciando nossa relação com a tecnologia e a sociedade (com o iPhone e suas variáveis), ou até investindo no lançamento do novo disco do U2, a Apple foi e ainda é parte indissociável dessa estrutura.

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Cook e o U2, durante o lançamento de “Songs of Innocence”. (Foto: Justin Sullivan/Getty Images/AFP

E é justamente porque a Apple é tudo isso que a declaração de Tim Cook não soa completamente chocante. Do ponto de vista empresarial, é um movimento sim, bastante ousado. Como chefão da companhia mais lucrativa da atualidade, ele tem um papel de destaque no mundo empresarial e financeiro, o que faz as palavras dele ressoarem com um impacto considerável. É uma atitude audaciosa porque não é possível medir as consequências negativas dela. Será que isso influenciará na maneira como a Apple é avaliada no lado do business? Ou pior, haverá algum tipo de boicote? (Por mais horrível que seja imaginar que ainda seja possível, sim, a possibilidade existe.) Outra questão certamente surgirá: será que Steve Jobs teria feito o mesmo? Ou, será que isso ocorreria se ele estivesse vivo?

Mas como deixa claro no texto, Cook revelou motivações pessoais bastante justas. Como comandante de uma empresa importante como a Apple, ele compreende que possui uma função no contexto atual da sociedade. Assim, é louvável que utilize esse apelo para levantar uma discussão positiva sobre um tabu, além de encorajar a diminuição do preconceito. E é possível até que a atitude dele incentive outras personalidades da mesma categoria a fazerem algo semelhante. Quanto mais se falar a respeito, mais compreensão e tolerância surgirão.

Ainda que as consequências sejam imprevisíveis, são claras as intenções positivas do corajoso passo de Cook. Mas nas entrelinhas, o movimento dele também pode ser interpretado de outro modo: como uma intenção de marketing mais calculada, ainda que também justa e bastante louvável. Não foi só um executivo do topo da cadeia alimentar que se “abriu” ao mundo empresarial; Tim Cook está também reforçando o status atual da Apple de empresa mais pop e inovadora do planeta.

E é por isso que, ao lançar mão da própria privacidade, o executivo desempenhou o mesmo papel de um “artista” (com aspas reforçadas) que representa uma voz importante dentro de uma classe de criadores e produtores culturais da qual a empresa da maçã é integrante. Mesmo não tendo a mesma força de antes, a Apple ainda é valorizada como a empresa mais moderna e revolucionária do mundo. No papel de CEO e principal porta-voz, Cook executa um ato ousado para que ela continue sendo considerada assim.

Se essa também foi uma das intenções de Tim Cook, a atitude é igualmente digna de aplausos. Que ela possa contribuir para um mundo bem menos preconceituoso e muito mais tolerante.


“O Segredo dos Diamantes” é o mais perto que teremos de “Goonies” no Brasil
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Pablo Miyazawa

(A partir da esq.) Matheus Abreu, Alberto Gouvea e Rachel Pimentel

Matheus Abreu, Alberto Gouvea e Rachel Pimentel, a trinca de heróis mirins. (Foto: Bianca Aun/Divulgação)

O filme “O Segredo dos Diamantes”, do diretor Helvécio Ratton, é um caso raro no cinema nacional.

É um longa-metragem pensado no público infanto-juvenil, mais especificamente meninos e meninas pré-adolescentes entre 8 e 12 anos. E o foco principal está na aventura: três amigos (dois garotos e uma garota) procuram por um tesouro escondido em uma pequena cidade no coração de Minas Gerais, desvendando enigmas, correndo perigos e fugindo de adultos inescrupulosos. Qualquer semelhança com “Os Goonies” não é mera coincidência. O filme de 1985 é uma das fontes de inspiração do cineasta, mas não a única – Ratton também cita a obra de Monteiro Lobato, filmes de Indiana Jones e quadrinhos do Tio Patinhas escritos e desenhados por Carl Barks.

Outra “ousadia” de “O Segredo dos Diamantes” é seu investimento multimídia de promoção. Antes mesmo do lançamento do filme (18 de dezembro), foi lançado um game de ação side-scrolling (vista de lado) para tablets e smartphones, que repete a premissa do enredo e serve como ferramenta promocional do filme.

Leia minha reportagem sobre “O Segredo dos Diamantes ” e a entrevista com Helvécio Ratt aqui.


É sempre um dia perfeito… para relembrar a música de Lou Reed
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Pablo Miyazawa

Lou Reed (Timothy greenfield-Sanders/Reprodução Facebook)

O rock sempre sentirá a falta de Lou Reed (Timothy Greenfield-Sanders/Reprodução Facebook)

Faz um ano que Lou Reed morreu. Foi em 27 de outubro de 2013. Você se lembra?

Foram quase cinco décadas de uma trajetória das mais brilhantes e controversas da história da música. Ele fundou o The Velvet Underground aos 22 anos e influenciou todas as bandas ditas “alternativas” que surgiram mais tarde; discutiu abertamente a própria sexualidade e quebrou os paradigmas da figura masculina no rock; cantou sobre perversões, drogas e a decadência do submundo como nenhum outro artista teve a coragem; destruiu os formatos vigentes criando música para incomodar e chocar; cuspiu em quem é unanimidade e defendeu aqueles que só apanhavam; e também escreveu algumas das mais belas melodias que tivemos o privilégio de ouvir nos últimos 50 anos.

Para celebrar a vida, a obra e a música de Lou Reed, selecionei a seguir dez versões de minhas canções favoritas entre as que ele compôs e cantou durante os primeiros anos de carreira, entre 1967 a 1974, com o The Velvet Underground ou no início da carreira solo. Não é um top 10 com as melhores, e sim as que considero pessoalmente mais significativas.

E vale sempre lembrar: todo dia é perfeito para ouvir música boa.

***

“I’m Waiting for the Man” (de “The Velvet Underground & Nico”, 1967)

“There She Goes Again” (de “The Velvet Underground & Nico”, 1967)

“Sunday Morning” (de “The Velvet Underground & Nico”, 1967)

“White Light/White Heat” (de “White Light/White Heat”, de 1968)

“Pale Blue Eyes” (de “The Velvet Underground”, de 1969)

“Perfect Day” (de “Transformer”, 1972)

“Satellite of Love” (de “Transformer”, 1972)

“Walk on the Wild Side” (de “Transformer”, 1972)

“Hangin’ Round” (de “Transformer”, 1972)

“Sweet Jane” (de “Rock ‘n’ Roll Animal”, 1974)


Morreu Jack Bruce, gênio indomável e inigualável baixista do Cream
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Pablo Miyazawa

Jack Bruce inspirou todo mundo, de Geddy Lee a Geezer Butler (Tina Korhonen/Reprodução Facebook)

No baixo ele inspirou todos, de Geddy Lee a Geezer Butler (Tina Korhonen/Reprod. Facebook)

Jack Bruce, o mítico baixista do Cream, morreu hoje aos 71 anos.

A notícia está no site oficial do músico, seguido de um inspirado epitáfio: “O mundo da música será um lugar mais pobre sem ele, mas ele continua a viver com sua música e para sempre em nossos corações”. Detalhes sobre a causa da morte ainda não foram divulgados, mas sabia-se que Bruce sofria de problemas no fígado.

Ótimo cantor e instrumentista excepcional (ele inspirou toda uma geração de baixistas, de Geddy Lee do Rush a Geezer Butler do Black Sabbath) e dono de uma das personalidades mais marcantes da era clássica do rock, o escocês Bruce era uma força da natureza no palco e também fora dele. Em mais de 50 anos de carreira, fez de tudo, tocou com todo mundo (de Ringo Starr a Frank Zappa) e jamais abandonou a música e o contrabaixo que tanto o caracterizou – o último disco solo dele, “Silver Rails”, foi lançado em março desse ano.

Mas certamente, sua maior e mais duradoura proeza foi conseguir duelar de igual para igual com os outros dois gênios difíceis do Cream, o guitarrista Eric Clapton e o baterista Ginger Baker, naquele que foi um dos power trios mais tecnicamente impressionantes da história. Durou apenas três anos e rendeu quatro discos, mas garantiu a eternidade dos três músicos excepcionais na galeria de heróis do rock. E por uma estranha coincidência, a gravadora Universal revelou essa semana que irá relançar em novembro toda a discografia do Cream em vinil.

Veja abaixo o clássico “Crossroads”, do Cream, em que Bruce parece fazer mágica com seu Gibson SG de quatro cordas.

E o já clássico show de retorno do Cream, no Royal Albert Hall, em 2005, tão consistente que faz parecer que o trio jamais deixou de tocar junto.


O Weezer quer retornar à boa vida de 1994. Mas o passado não tem mais volta
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Weezer 2014: Rivers Cuomo, Brian Bell, Scott Shriner e Pat Wilson (Foto: Kevin Winter/Getty Images)

Não há meio termo com o atual Weezer. Ou se ama, ou se odeia.

Com um disco novo lançado há menos de um mês, “Everything Will Be Alright in the End”, o nono da banda, produzido por Rick Ocasek, o Weezer propôs uma volta aos bons tempos. A proposta está descrita na letra do primeiro single, “Back to the Shack” (ouça aqui), na qual o vocalista Rivers Cuomo enumera o que não tem dado certo nas investidas recentes do grupo. A troca de instrumentos ao vivo – o baterista Pat Wilson assumia a guitarra, enquanto Cuomo se tornava apenas o cantor –, os flertes bizarros com produtores de música dançante, o afastamento do formato do rock tradicional e a alienação dos fãs antigos, que não conseguiam mais reconhecer a banda que aprenderam a amar nos anos 1990. Tudo isso em uma faixa de três minutos e que de longe é a mais pegajosa do novo álbum.

Outro verso que chama atenção em “Back to the Shack” é este: “Kick in the door, more hardcore / Rockin out like it’s ’94”. Ou seja, o Weezer quer retornar para “a cabana” onde estão os fãs antigos que se apaixonaram pela banda no primeiro disco, o “Blue Album” (1994). Só que se é uma promessa ou apenas uma intenção, não fica muito claro na primeira ouvida. “Everything Will Be Alright…” não engrena de cara e soa esquisito no contexto geral. Está claro que não é o Weezer da primeira fase que está ali. O senso geral pode remeter ao “Green Album” (2001), que a banda lançou após um hiato causado pelo fracasso de “Pinkerton” (1996), hoje o disco mais amado pelos seguidores devotos do Weezer. Certamente não soa tão superproduzido e inadequado como a maioria das faixas dos recentes “Raditude” (2009) e “Hurley” (2010). Talvez esteja no meio termo disso tudo, algo que lembra os razoáveis “Maladroit” (2002) e “Make Believe” (2005).

Há muitas teorias de fãs e jornalistas que explicam o porquê do Weezer dos primeiros anos ter se tornado algo tão diferente com a virada do século. Eu particularmente gosto da ideia que reivindica a real importância de Matt Sharp, o baixista que deixou a banda em 1998.

Sempre enxerguei Sharp como um integrante subestimado do Weezer. O potencial dele pôde ser provado nos vários ótimos discos que fez com seu projeto paralelo (hoje titular), o The Rentals. Mesmo esporádico e variando integrantes, o Rentals há quase 20 anos mantém uma identidade musical bem definida, combinando melodias delicadas (cantadas por Sharp e cantoras convidadas), instrumentos alternativos (violino, viola, teclado moog) e guitarra e bateria pesadas. O disco mais recente, “Lost in Alphaville”, já é um dos meus favoritos de 2014.

Infelizmente, não é possível provar que Sharp deixou uma marca musical tão profunda no Weezer apenas escutando os dois discos dos quais ele participou. Uma vez que as faixas eram compostas principalmente por Cuomo, pouco sobrava espaço para o baixista emplacar ideias prontas. Ele se fez ouvir principalmente nos backing vocals, agudos e dissonantes, que fazem a cobertura perfeita para o tom quase desafinado de Cuomo. Os discos sem Sharp sentem falta dessa harmonização especial que tão bem funcionou na primeira fase, mas não é só isso. Cuomo deve ter sentido a falta de um parceiro criativo como Sharp, ainda que a composição continuasse a cargo do vocalista. A teoria é a de que Sharp funcionaria como uma espécie de “ombudsman” de Cuomo, conforme este analista suspeita.

Sharp seria o ” olho crítico“ que conteria os impulsos mais pop/farofeiros de Rivers Cuomo. Ele, por sua vez, contaria fortemente com a opinião musical de Sharp, um músico versado em melodias e com uma tendência de composição mais lírica e harmônica, a respeito do caminho tomado pelas canções. Algumas já existiam antes do baixista entrar no grupo (“My Name is Jonas”, “The World Has Turned and Left me Here”), mas é indiscutível o papel exercido por ele em faixas de apelo agridoce como “Say it Ain’t So”. Sharp provaria de vez essa capacidade nas faixas que escreveu para o Rentals, que fundou ainda durante a permanência no Weezer.

É difícil para os nostálgicos não esperar do Weezer a mesma melancolia e o espírito indie dos primeiros discos (mesmo que tenham sido lançados por uma grande gravadora). O fato é que Rivers Cuomo nunca mais alcançou proeza semelhante às que realizou naqueles dois trabalhos. Aquelas músicas traziam características comuns, ainda que tão diferentes entre si. A maioria traz alternâncias entre acordes maiores e menores, que resultam em uma sonoridade mais obscura e emotiva, menos “animada”, principalmente no que diz respeito às melodias vocais. Os temas daquelas faixas também correspondiam a certo estado de espírito pós-adolescente beirando o jovem-adulto, confessional e menos preocupado com opiniões alheias.

As faixas do primeiro disco, escritas quando Cuomo tinha por volta de 21 anos, falavam sobre inadequação (“The World Has Turned and Left me Here”, “Undone”), nostalgia (“Buddy Holly”), problemas domésticos (“Say it Ain’t So”) e paixões adolescentes (“No One Else”). Já as de “Pinkerton”, escritas após o sucesso repentino, tentavam lidar com a fama (“Tired of Sex”, “The Good Life”) e relacionamentos (“Across the Sea”, “No Other One”, “Falling for You”), com apelo emocional elevado e incrementadas por arranjos complicados, virtuosismo, produção suja e uma nuvem nublada por cima dos vocais. Era um álbum mais depressivo, mas musicalmente superior. Só não fez tanto sucesso como o anterior.

Cuomo jamais se abriu tanto quanto em “Pinkerton”. As feridas estão expostas e ele canta de coração aberto sobre temas que seriam considerados reveladores demais, caso ele tivesse uma auto-percepção mais aguçada. Como o disco não foi tão bem recebido na época, o líder se viu envergonhado pelo exagero de sua entrega.  Entrou em crise criativa e a banda só voltou a gravar cinco anos depois. No meio do caminho, Sharp deixou o grupo (ou foi tirado? Isso nunca ficou claro). Quando retomou o Weezer, com a ideia de rejeição ainda pesando, Cuomo passou a filtrar os sentimentos que revelava descuidadamente. Resolveu se reinventar como compositor, e isso incluiu trancar os sentimentos embaraçosos e agir mais como um narrador das histórias alheias. Aproveitou para resistir aos acordes menores e a utilizá-los com parcimônia.

Não que fosse possível imaginar esse novo direcionamento. “Weezer” (2001), ou “Álbum Verde”, também produzido pelo mesmo Rick Ocasek, talvez seja o disco com menos personalidade do grupo. As tentativas de emular a vibração do primeiro sucesso – o conceito da cor da capa, o título, o produtor, a quantidade de faixas –, mostram que Cuomo ainda não estava certo sobre como sua nova persona musical deveria se portar. E os outros integrantes não se arriscaram a interferir no cérebro da banda. Músicas diretas como “Island in the Sun”, “Hash Pipe”, “Don’t Let Go”, todas pop até a medula, soavam como um outro Weezer, menos tímido e deprimido, mas ainda pisando em ovos, sem muita certeza de estar fazendo a coisa certa. E se não era a coisa certa, uma verdade ecoava: já não era a mesma banda.

Não dá para afirmar que o Weezer “feliz” do século XXI é pior do que o dos anos 1990. É apenas diferente. Não é tão raro Cuomo acertar na medida do power-pop melancólico, principalmente quando se volta para si mesmo e é nostálgico (“Memories”, de “Hurley”, é um bom exemplo da essência daquele velho Weezer combinada ao estilo atual). Mas ele se vê mais à vontade cantando sobre histórias inventadas do que abrindo o próprio coração. Ou quando o faz, ri de si próprio e não se leva a sério (como na esdrúxula “Pork and Beans”, do “Album Vermelho” (2008), ou mesmo em “Memories” e “Back to the Shack”). Talvez o anticlimax pós-“Pinkerton” tenha apenas catalizado a busca por esse caminho mais alegre, conformado e confortável com sua faceta pop. Ele aconteceria de qualquer maneira. E muitas faixas do novo disco comprovam essa incansável busca por aceitação, como “Ain’t Got Nobody”, “Go Away” e “Lonely Girl”, interessantes e até pegajosas, porém facilmente esquecíveis.

“Everything Will Be Alright in the End” tem uma proposta de volta às origens. Mas disco após disco, o Weezer mais parece tentar nos provar exatamente o contrário – que o passado ficou para trás e não tem mais volta. E isso só acontece porque todos somos pessoas diferentes no tempo presente. Rivers Cuomo cresceu, virou adulto, formou família, teve filhos e atravessou a crise da meia idade aos trancos e barrancos. Ele não poderia cantar e reclamar como um universitário rejeitado pelo resto da vida. Se hoje é outra pessoa, os antigos fãs também o são. E aqueles que conseguem compreenderam o Weezer de hoje é porque também aceitaram essa nova realidade.


O estranho mundo de “Weird Al” Yankovic: ele mudou o videoclipe para melhor
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Pablo Miyazawa

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“Weird Al” Yankovic recria Rambo: o humorista fez da paródia musical sua obra de arte. (Reprodução)

Na distante época pré-YouTube, o trabalho do músico-humorista “Weird Al” Yankovic já era de certa forma mítico. Os absurdos vídeos-paródia que ele criava não eram exatamente frequentes na MTV e outros canais musicais durante as décadas de 80 e 90. Mesmo assim, ele adquiriu para si um status de artista cult e uma base de fãs fiéis. Mas o maior mérito dele foi tornar digerível a ideia de transformar canções de sucesso em versões satíricas, algo que hoje é considerado carne de vaca na internet. Yankovic tem realizado esse trabalho há mais de três décadas. E hoje, 23 de outubro, ele completa 55 anos.

O californiano Alfred Matthew Yankovic pode comemorar o fato de ser um dos poucos artistas de décadas passadas (ele começou a fazer versões e vídeos no início dos 1980) que talvez seja muito mais popular atualmente do que quando se encontrava em seu suposto auge. Só que ao que parece, o auge de Yankovic ainda não chegou. Ele continua a fazer sucesso com suas paródias engraçadíssimas de hits contemporâneos, de Lady Gaga a Robin Thicke, passando pelo hip-hop de Eminem Chamillionaire.

Esse renovado apelo com a nova geração se deu graças à utilização inteligente do YouTube, a plataforma com a qual Yankovic melhor difundiu seu trabalho para um público que nem sabe mais o que é assistir a um videoclipe na televisão. O último disco dele, “Mandatory Fun”, saiu em julho passado e entrou em primeiro lugar na parada norte-americana. Nada mal para um punhado de músicas engraçadas feitas para perturbar e que poucos críticos levavam a sério. E os artistas satirizados raramente desaprovam as “homenagens”.

O trabalho de Yankovic como músico é também algo fora-de-série. Por mais bizarro que possa parecer, a habilidade dele com o acordeão é de um virtuosismo incomum, e o alcance de seu timbre elástico o permite emular vozes com destreza. Na parte das letras, é um rei dos trocadilhos inteligentes, reinterpretações absurdas e duplo sentido de bom gosto. Mas é no mundo do videoclipe que a genialidade de “Weird Al” é mais aparente. Hoje ele continua mandando bem, mas minha fase favorita é a primeira, quando ele ainda ostentava camisas floridas, óculos caretas e um bigodinho. Como homenagem pelo aniversário do mestre da zoeira musical, selecionei meus 11 vídeos favoritos, mais cinco das melhores “Weird Al Interviews” que ele realizou. Onze vezes cinco dá 55, a idade que “Weird Al” Yankovic alcança hoje. Ele certamente teria curtido essa referência sem sentido.

***

Os 11 Melhores Clipes Clássicos de Weird Al Yankovic:

“I Love Rocky Road” (1983)
Um dos primeiros vídeos de Yankovic foi produzido antes mesmo de ele lançar o primeiro álbum. Aqui, ele satiriza o hit eterno de Joan Jett e troca o amor pelo rock and roll pela vontade incontrolável de tomar sorvete de flocos.

“Eat It” (1984)
O clipe que fez o mundo prestar atenção a Weird Al. A paródia do “Beat It” de Michael Jackson é perfeita na letra e hilariante na precisão do videoclipe, que rendeu a ele o 12º lugar na parada de singles americana. E vale dizer que o próprio MJ não se ofendia e era fã declarado de Yankovic.

“I Lost on Jeopardy” (1984)
Versão da não tão conhecida “Jeopardy”, da Greg Kihn Band, esta vale pelo clipe bem produzido que mostra Weird Al sofrendo derrotas em um famoso game show de perguntas e respostas. O vocalista da música parodiada aparece no vídeo, assim como o apresentador e o locutor originais de “Jeopardy!”.

“Like a Surgeon” (1985)
Madonna nunca foi muito esculachada por Weird Al, mas esta versão de “Like a Virgin” compensa. Aqui, ele exibe criatividade ao fugir quase que completamente da temática sexual da música original. Quase, porque ele não se intimida em dar gritinhos, sensualizar e se esfregar no chão como a loira faria.

“Dare to be Stupid” (1985)
Outro sinal da percepção musical de Yankovic é quando ele cria canções totalmente originais apenas inspirado no estilo de algum artista. Foi o caso dessa paródia completa ao Devo, com direito a um vídeo ensandecido, uma batida empolgante (que poderia mesmo ser do Devo) e até um solo de banjo (!).

“Living With a Hernia” (1986)
Weird Al emula James Brown a sua maneira, em uma das versões mais infames da primeira fase de sua carreira. Aqui, “Living in America”, faixa patriota da trilha do filme “Rocky IV”, transforma-se em um lamento causado por uma incômoda hérnia de disco. O resultado é impecável e de chorar de rir.

“Fat” (1988)
Além da paródia do Nirvana (veja mais abaixo), este é o vídeo mais conhecido de Weird Al. Repetindo o que havia feito com “Eat It”, ele elevou ao máximo a fixação por detalhes, recriando a emblemática “Bad” de Michael Jackson com assombrosa perfeição – obviamente, alterando histericamente o tema original. O single chegou ao top 40 e rendeu um Grammy de melhor vídeo conceitual.

“Smells Like Nirvana” (1992)
Se havia dúvidas de que Weird Al Yankovic é um gênio da paródia visual, a prova está aqui: muita gente demorava a perceber que não se tratava do clipe de “Smells Like Teen Spirit” do Nirvana. Assim como a original, a versão fez muito sucesso e trouxe o mito novamente para a alta rotatividade na MTV.

“Bedrock Anthem” (1993)
Na cabeça de Weird Al Yankovic, faz sentido pegar “Give it Away” do Red Hot Chili Peppers e criar uma conexão com Os Flintstones. Chama a atenção aqui também a perfeição da recriação do clipe original. Algum desavisado poderia pensar que Anthony Kieds tinha emagrecido e deixado o bigode crescer.

“Amish Paradise” (1999)
A maior contravenção de Weird Al foi transportar a dureza urbana de “Gangsta’s Paradise” para o universo bucólico da religião amish. Quem não gostou foi o rapper Coolio, que alegou não ter sido consultado pelo humorista (mas acabou entrando em acordo de divisão de royalties mais tarde). Depois do caso, Yankovic nunca deixou de pedir permissão para os artistas que quis parodiar.

“The Saga Begins” (1999)
Versão de “American Pie” de Dan McLean, na qual Weird Al tenta pegar carona no hype do lançamento de “Star Wars – Episódio I: A Ameaça Fantasma”. A proeza dele foi criar previamente uma letra detalhada e um vídeo que remete perfeitalmente ao visual renovado dos filmes de George Lucas sem nem ao menos ter assistido ao longa.

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Bônus – “Weird Al” Yankovic Interviews
Tão divertidos quanto os clipes musicais são as perturbadoras entrevistas “fake” que ele criava com celebridades da música e eram transmitidos no canal de comédia Al TV. Explicando: Weird Al utilizava entrevistas reais de artistas concedidas previamente para outras pessoas, e as reeditava para tirar do contexto as declarações. Estas são cinco das mais absurdas – e minhas favoritas.

“The Paul McCartney Interview” (1996)

“The Madonna Interview” (1996)

“The Britney Spears Interview” (2003)

“The Celine Dion Interview” (2003)

“The Avril Lavigne Interview” (2003)


Após 30 anos, cidade de Os Goonies ainda vive o espírito do filme
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Pablo Miyazawa

goonies abre

Stef, Bolão, Dado, Mikey, Bocão, Brand e Andy: Goonies para sempre (Foto: Reprodução)

Dá para acreditar que “Os Goonies” fará 30 anos em 2015?

É, o tempo passa rápido quando estamos nos divertindo. A estreia ocorreu em 7 de junho de 1985, mas a produção do filme começou no final do ano anterior – mais especialmente em 22 de outubro de 1984. Quem garante é a Wikipedia. Para quem gosta de celebrações e efemérides, então aí está: hoje é, oficialmente, o dia em que “Os Goonies” completa 30 anos.

Para mim, esse é o filme de aventura infanto-juvenil mais emblemático dos anos 1980. Ok, “Curtindo a Vida Adoidado” é inesquecível, “Conta Comigo” é tocante, “Gremlins” é engraçadinho, “De Volta para o Futuro” é fascinante. “Os Goonies” é tudo isso junto em um só pacote e muito mais. Os ingredientes estavam todos lá, reunidos para agradar de cara qualquer criança com imaginação fértil. Navios piratas, tesouros escondidos, uma turma de desajustados e oprimidos se rebelando contra “o sistema”, romance, bandidos, bicicletas… e escorregadores gigantes. “Goonies” resistiu ao tempo, e se na época não foi tão aclamado pela crítica, é porque o cinema de ação ainda começava a se levar a sério. E além do mais, é um produto para crianças. Nenhum crítico daquela época pré-Pixar respeitava filmes feitos para o público infantil – “E.T.” seria uma exceção, mas como é uma obra do respeitado Steven Spielberg, a percepção foi diferente.

“Os Goonies” também foi uma ideia de Spielberg. Ele tinha a história, mas não queria dirigi-la, preferindo desempenhar o papel de produtor executivo. Então, entregou a função a Richard Donner, diretor de “Superman” e “Máquina Mortífera”. Há um documentário no DVD que mostra a dinâmica entre os dois – Spielberg é o maestro coordenando a magia nos bastidores enquanto Donner executa o trabalho sujo, controlando as atuações das crianças como um paizão enérgico. Funcionou, e os atores mirins conseguiram obter a química necessária para compensar a grande quantidade de cenas de ação vertiginosas e barulhentas. Criou-se um clássico cuja combinação perfeita jamais foi repetida.

É uma ótima notícia a de que Richard Donner e Steven Spielberg estão trabalhando em uma sequência – ainda mais porque o elenco original tem dito que toparia participar. Não será um filme fácil de compensar as expectativas de tantos fãs de meia idade, mas poderá ser um sucesso de bilheteria entre as novas gerações, mesmo se respeitado o ritmo mais “lento” do produto original. E não é que os atores tenham passado 30 anos reunidos esperando pelo grande revival. O último reencontro público do time completo foi em 2009, para uma reportagem da revista “Empire” (veja abaixo). Antes disso, eles se reuniram em 2001, para a gravação da trilha de comentários do DVD.

O que os fãs também esperam é que “ Os Goonies 2” (ou seja lá qual for o nome) seja produzido no cenário do primeiro filme, Astoria. Há exatas três décadas, as filmagens de “Os Goonies” tiveram início nessa cidadezinha à beira-mar de Oregon. Astoria jamais se recuperou por completo da experiência, e ainda vive, discretamente, é verdade, o espírito do filme. Não que aquilo fosse uma novidade para os quase 10 mil habitantes: não foram poucos os longas que usaram a região como pano de fundo. Discreta e cercada pelo mar e montanhas, repleta de sobrados ao estilo vitoriano, ruas sinuosas e árvores imponentes, Astoria parece mesmo o cenário perfeito para uma aventura adolescente em dia de chuva.

Visitei Astoria em abril passado, quando seguia de Portland para Seattle. A cidade fica no meio do caminho, quase na divisa entre estados (é preciso sair de Oregon, entrar no estado de Washington e atravessar a fronteira para Oregon novamente). A entrada não é memorável, nem há uma placa com a saudação “Bem-vindo à cidade dos Goonies” ou algo parecido. Para encontrar referências ao filme, é preciso saber procurar (ou consultar um dos inúmeros sites que mapearam a Astoria dos Goonies).

Vista interna do Cafe Astoria, cenário de cenas de “Os Goonies”. (Pablo Miyazawa/Arquivo Pessoal)

Vista interna do Cafe Astoria, cenário de cenas de “Os Goonies”. (Fotos: Pablo Miyazawa/Arquivo Pessoal)

Logo de cara, há um estabelecimento que que passa batido pelo público menos atento. Em 1984, o local abrigava uma loja de conveniência onde foi filmada uma cena posteriormente cortada (que pode ser vista nos extras do DVD). Nada na atual decoração do hoje Astoria Coffee Co.  lembra a cena, mas a simpática proprietária parece saber que a maioria dos turistas que entra ali são seguidores curiosos dos Goonies. Ocupada entre xícaras e sacos de grãos de café, ela não faz menção de promover seu negócio em cima do filme famoso. Preferiu comentar sobre o clima, um hábito típico dos habitantes do estado. “Vieram do Brasil para cá? Tiveram sorte! Não chove há três dias”, falou, apontando para o raro céu aberto com nuvens.

A regra é clara: somente “goonies a pé” são bem-vindos. (Pablo Miyazawa)

A regra é clara: somente “goonies a pé” são bem-vindos no local.

No mesmo quarteirão, subindo duas ladeiras, está o local específico mais emblemático de Astoria, pelo menos para os Goonies: a casa dos heróis Mikey (Sean Astin) e Brand Walsh (Josh Brolin), tão icônica que é conhecida como “The Goonies House”. Para os vizinhos, o sobrado elegante de cercas e paredes brancas é uma residência normal, com moradores que já habitavam ali antes mesmo do longa. Mesmo quando não estão presentes, é permitida a aproximação dos curiosos. Uma placa colorida saúda os visitantes com uma saudação e um aviso: “Goonies a pé são bem-vindos. Sem carros, por favor”.

A casa da família Walsh permanece impecável, mas não é aberta ao público. (Pablo Miyazawa)

A casa da família Walsh permanece impecável, mas não é aberta ao público. (Pablo Miyazawa)

A placa pede “privacidade” aos visitantes, para evitar invasões. (Pablo Miyazawa)

A placa pede “privacidade” aos visitantes, para evitar invasões.

Localizada no alto de um morro, a casa possui uma vista privilegiada da costa, da rodovia e dos telhados abaixo. Apesar da aparência ordinária, detalhes chamam a atenção. Uma placa ao lado da caixa de correios pede doações, enquanto outra diz “The Goondocks” (Docas Goon, o nome daquele bairro no filme). Bandeiras dos Estados Unidos e de Israel estão permanentemente hasteadas em um poste na varanda. Diante do portão da cerca, no exato lugar onde Chunk (Bolão, interpretado por Jeff Cohen) dançou o infame “truffle shuffle”, é possível ler um outro aviso que pede que os fãs “respeitem a privacidade” dos moradores. Provavelmente querem evitar visitas indesejadas de fanáticos pelo Sloth na sala de estar.

Os moradores da “Goonies House” pedem doações aos visitantes. (Pablo Miyazawa)

Os moradores da “Goonies House” pedem doações aos visitantes.

Separada por um gramado, a casa de Data (ou Dado na versão brasileira, papel de Ke Huy Quan) fica logo à frente, e também parecia vazia no dia da visita. É possível avistar a janela de onde o garoto desliza por um cabo de aço até a casa dos Walsh ao som da trilha de “007”. O local em si não conserva muitos dos detalhes vistos na telona, mas é impossível estar naquele terreno e não relembrar de cenas e diálogos inteiros. Não eram poucos os turistas adultos posando para fotos e comentando com os filhos “Esse filme faz parte da minha infância”. É até compreensível que para os mais novos o apelo não seja tão intenso. Apesar de ter envelhecido bem na narrativa, “Os Goonies” pode parecer visualmente datado para olhos mais acostumados a filmes frenéticos de Quentin Tarantino e J.J. Abrahms.

goonies vista

A vista de Astoria do alto do morro onde se localiza a “The Goonies House”.

O centro de Astoria fica alguns quilômetros afastados dali pela via costeira. No caminho é possível ver o campo de futebol onde a mocinha Andy (Kerri Green) treina passos de cheerleader durante os créditos de abertura. Mais adiante está o museu onde o pai de Mikey trabalha, o Flavel House Museum, que é visto de relance quando os garotos passam com suas bicicletas ao som de “The Goonies R Good Enough” de Cindy Lauper. No mesmo quarteirão, na Duane Street, encontra-se outro edifício icônico: a delegacia de onde os bandidos Mama (Anne Ramsey) e Francis Fratelli (Joe Pantoliano) resgatam o irmão Jake (Robert Davi), no exato primeiro minuto do filme.

A cela onde Jake Fratelli escapa ainda guarda o bilhete que ele deixou ao policial. (Pablo Miyazawa)

A cela da prisão ainda conserva o bilhete que Jake deixou ao policial.

A cadeia existia mesmo, mas hoje não abriga mais foras-da-lei. Em 2010, coincidindo com as comemorações de 25 anos de “Os Goonies”, o local se tornou um museu cinematográfico que conta a relação de Astoria com filmes de Hollywood. Além de “Goonies”, outros longas como “Free Willy”, Um Robô em Curto Circuito” e “Um Tira no Jardim de Infância” foram filmados por lá. O museu é bem equipado e traz fotos, vídeos e brincadeiras interativas espalhadas por um espaço minúsculo, mas intacto: as celas do presídio continuam em pé e é até permitido entrar no espaço onde Jake se finge de enforcado antes de espancar o guarda.

A jaqueta de Dado (Ke Huy Quan), inspirada em 007. (Pablo Miyazawa)

A jaqueta de Dado (Ke Huy Quan) foi inspirada nos truques de 007.

Se o foco do Oregon Film Museum não está em “Goonies”, a obra acaba sendo a estrela do passeio. Uma das principais peças de memorabilia exibidas é o casaco de utilidades usado por Dado, com direito a “inças do perigo” e “sapatos escorregadios”. No final da visita, uma loja de suvenires vende camisetas, canecas e réplicas de dobrões espanhóis da coleção pessoal de Willy O Caolho. Quem responder a um quiz sobre os filmes do museu ainda pode levar um brinde (eu acertei e ganhei uma moeda dourada do pirata).

Para quem tiver tempo sobrando, ainda vale pegar outra estrada para a praia Cannon Beach, que fica a 50 quilômetros ao sul de Astoria, onde foram filmadas as cenas da fuga dos Fratelli. Mais adiante, na estrada Ecola State Park Road, também se pode apreciar a famosa vista costeira em que os Goonies enxergam as pedras do mapa do tesouro (as Haystack Rocks) e encontram o restaurante que servia de esconderijo dos bandidos (que foi construído especialmente para o filme e não está mais em pé). Todas as cenas subterrâneas, do navio pirata e a sequência final na praia, foram produzidas a centenas de quilômetros dali, em Los Angeles.

E para quem pensa em uma visita futura, talvez seja uma boa planejar a data: entre 5 a 7 de junho de 2015, Astoria irá abrigar o “Goonies Day”, evento em comemoração às três décadas do filme, com presença esperada de parte do elenco, exibições ao ar livre e atividades interativas. Mesmo para quem acha que já passou da idade de ser um goonie, é uma aventura imperdível.


Freaks and Geeks: a melhor série jovem de todos os tempos que ninguém viu
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Pablo Miyazawa

Antes da fama: Seth Rogen, Jason Segel, Linda Cardellini e James Franco. Chris Haston/NBC/NBCU Photo Bank/Divulgação

Antes da fama: Seth Rogen, Jason Segel, Linda Cardellini e James Franco (Chris Haston/NBC/Divulgação)

Há pouco mais de 15 anos estreava na TV o seriado “Freaks and Geeks”.

Talvez você já tenha visto ou pelo menos ouvido falar a respeito. Se a resposta for não para ambas as opções, isso é totalmente justificável. A produção durou apenas 18 episódios, transmitidos nas noites de sábado entre 1999 e 2000 pela emissora americana NBC, e foi exibida brevemente no Brasil no canal pago Multishow. E por um desses acidentes do destino que normalmente ocorrem em um cruel universo movido a números de audiência, o programa foi cancelado antes mesmo do final da primeira temporada.

Hoje é estranho pensar que uma série tão estrelada foi interrompida por falta de um público cativo. “Freaks and Geeks” é um verdadeiro “quem é quem” da comédia holywoodiana recente, a começar por seu produtor executivo, Judd Apatow, responsável por algumas das principais bilheterias do gênero nos últimos dez anos – “Ligeiramente Grávidos”, “Segurando as Pontas”, “O Virgem de 40 Anos”, “Superbad” e tantos outros carregam a assinatura característica dele (hoje, ele também é o produtor do sucesso “Girls”, de Lena Dunhan). Já o elenco principal trazia os ainda desconhecidos James Franco, Seth Rogen e Jason Segel, todos hoje bem sucedidos, onipresentes nas telas e com um punhado de filmes de Apatow no currículo. Paul Feig, ator, roteirista e idealizador da série, também fazia ali sua estreia nos bastidores televisivos. Mais tarde ele dirigiu episódios de “The Office” e “Arrested Development” e atualmente está produzindo a adaptação de “Peanuts” (Snoopy e Charlie Brown) para o cinema.

Foi uma combinação perfeita e que hoje em dia até parece infalível. Apatow precisava desesperadamente emplacar uma série. Feig tinha o enredo pronto de uma narrativa baseada nos fatos de sua adolescência suburbana no início dos anos 1980. Juntos, reuniram um elenco promissor e produziram episódios com forte apelo comportamental, que versavam sobre sexo, drogas, relacionamentos, costumes e inadequação, tudo permeado pelo espírito rock & roll que ainda resistia da década anterior. A sequência de abertura, embalada por “Bad Reputation” de Joan Jett, já dava pistas do que estava por vir. As atuações são irretocáveis, mas é na história e na ousadia com que abordava os temas que “Freaks…” se diferenciava de outros produtos para o público jovem.

Em se tratando de seriados televisivos, nenhum discutiu os percalços da adolescência de modo tão corajoso e descompromissado, lidando bem com clichês e estereótipos e sem apelar para a risada fácil. Como muito bem definiu o leitor @luiz_young, imagine algo bem no meio do caminho entre “Anos Incríveis” e “How I Met Your Mother”. Está muito claro que “F&G” não era uma série de humor, mas também não é possível chamá-la de drama. A história conta a rotina de dois grupos de jovens em Chippewa, cidade minúscula e fictícia próxima a Detroit. Os freaks eram os chapados e arruaceiros que matavam aula para fumar, encher a cara e vadiar. Os geeks eram os nerds desengonçados que tinham problemas em lidar com a pressão de crescer e aparecer em público. No meio dos dois lados está a personagem de Linda Cardellini, Lindsay, que se esforçava para ser aceita pela turma do fundão mas não conseguia esconder a faceta CDF.

De um lado, os freaks. Do outro, os geeks. Crédito: Chris Haston/NBC/Divulgação

Dois lados, mesma moeda: à esquerda, os freaks; ao lado, os geeks. (Chris Haston/NBC/Divulg.)

“Freaks and Geeks” estreou em 25 de setembro de 1999, e os derradeiros episódios foram transmitidos em outubro do ano seguinte. A produção foi encerrada mesmo sendo um sucesso de crítica (chegou a ganhar o prêmio Emmy de melhor elenco e foi indicado por duas vezes a melhor roteiro), muito porque nunca conseguiu manter um público volumoso e fiel. O culto dos fãs órfãos se manteve ativo nos últimos 15 anos, sustentado por reprises, a disponibilidade no Netflix (nos EUA) e relançamentos em DVD e Bluray (o YouTube traz a maioria dos episódios na íntegra). Ao longo dos anos, os atores e produtores têm demonstrado orgulho do trabalho e até tentam explicar o fracasso. Críticos que aplaudem a série são unânimes em considerá-la injustiçada e à frente de seu tempo. E ainda há quem não se conforme com o fim abrupto – não só entre os fãs, mas também no elenco.

Há alguns dias, Seth Rogen, que fazia o “freak” Ken Miller, declarou que havia enfim encontrado e confrontado a pessoa responsável pelo cancelamento de “Freaks and Geeks”. No dia seguinte, o ator de “Segurando as Pontas” deu uma entrevista na qual relatou que o tal executivo da NBC tentou justificar a decisão, alegando que “Judd [Apatow] não escutava meus comentários” e que via como um problema o fato de os protagonistas sempre se darem mal.

Garth Ancier, o executivo em questão, acabou se pronunciando no Facebook  após o primeiro comentário de Rogen. “Como eu falei, meu único comentário para Judd Apatow sobre a série era que tanto os freaks e/ou os geeks deveriam vencer os garotos cool – especialmente porque Apatow tem seguido esse conselho em todos os filmes de sucesso que fez depois”, escreveu. Ele acrescentou que “absolutamente odiou cancelar este programa. Era claro desde o começo que ‘F&G’ tinha um ótimo texto de Judd e Paul Feig e um elenco incrível. Foi uma decisão horrível que tem me atormentado para sempre… Mas era o programa menos assistido da emissora.”

Mais tarde, Ancier escreveu mais um post, dessa vez reclamando da reação de Rogen na entrevista: “Novamente, peço desculpas aos caras muito talentosos que fizeram essa série tão divertida de se assistir. Na minha próxima vida eu irei revivê-la na TV a cabo!” E assim, de um jeito agridoce, encerra-se definitivamente o assunto “Freaks and Geeks” na grande mídia – pelo menos até a série completar 20 anos. O culto dos fãs devotos, porém, tem tudo para seguir firme.

 


O contrabaixo é o maior injustiçado do rock. Mas a internet quer mudar isso
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Pablo Miyazawa

O culto a Cliff Burton, baixista do Metallica, ajuda a manter o baixo em alta no YouTube

O culto a Cliff Burton, do Metallica, ajuda a manter o baixo em alta no YouTube. Foto: Divulgação

Pobres baixistas.

De um modo geral, nenhum instrumentista é menos valorizado no universo do rock tradicional, aquele do esquema voz-guitarra-baixo-bateria. Guitarristas são considerados heróis; bateristas suam a camisa e causam fascinação; vocalistas normalmente são o centro das atenções – como não seriam? Os baixistas, por sua vez, são pouco percebidos e frequentemente mal são ouvidos pela maioria. E isso não é culpa do clichê que diz que esses músicos são mais discretos em relação aos outros. A questão é mesmo científica. De fato, quando se trata de um instrumento de frequências graves que serve para compor a base da música, fica difícil concorrer sonoramente de igual para igual com timbres mais agudos e evidentes.

Baixistas normalmente convivem com a falta de holofotes (claro que há muitas ótimas exceções), mas creio que a maioria deles não sofre por isso. Eu acredito que muita gente escolheu o baixo como instrumento justamente para combinar com a personalidade mais discreta de quem não quer todas as luzes em si. De modo geral, o baixista é um trabalhador braçal que não exige tanta adulação e que está satisfeito em fazer o próprio trabalho pelo bem da música. E no que diz respeito à importância, espero nem precisar reforçar o papel obrigatório que o contrabaixo tem no rock, que dirá em outros gêneros mais “silenciosos” como o pop, o jazz, o funk e o blues. Para deixar um exemplo, tente escutar “All My Loving” sem as linhas galopantes de Paul McCartney para ter uma breve ideia.

Capa de “A Vida e a Morte de Cliff Burton”, do britânico John McIver (Ed. Gutenberg/Divulgação)

Capa de “Cliff Burton – A vida e a morte do baixista do Metallica”, do britânico John McIver (Ed. Gutenberg/Divulgação)

Terminei de ler essa semana “Cliff Burton: A Vida e a Morte do Baixista do Metallica” (Ed. Gutenberg), biografia do finado músico que será lançada no mês que vem no Brasil. Burton é um caso único em se tratando de música pesada. Instrumentista virtuoso e de criatividade incontrolável, ele nunca se contentou com o papel normalmente secundário do baixo no heavy metal. Suas performances ao vivo eram shows a parte que ofuscavam quem estivesse no mesmo palco. Entre seus muitos méritos, conseguiu emplacar o solo “Anesthesia (Pulling Teeth)” no primeiro disco do Metallica e compôs riffs e harmonias que ajudaram a determinar o caminho mais melódico que a banda tomaria com o passar dos anos. Morreu em uma acidente de ônibus em 1986, aos 24 anos, sem jamais presenciar o Metallica se tornando o maior grupo de música pesada do planeta. O vídeo abaixo dá um gostinho do que Burton mais gostava de fazer.

Também infelizmente, Burton nunca foi muito privilegiado nas mixagens do Metallica. É preciso ter um ouvido muito atento e certa predisposição para reconhecer as linhas intrincadas, distorcidas e cavernosas enterradas entre as paredes de guitarras de James Hetfield e Kirk Hammett (para quem quiser uma alternativa, escute essa versão de “Ride the Lightning” com o baixo reforçado, o disco em que a habilidade de Burton fica mais evidente). Criadas por fãs, essas versões remixadas existem aos montes no YouTube, assim como trilhas separadas do baixo de diversas músicas (procure pelas palavras “bass track only”, “bass isolated” e “bass enhanced” para encontrar).

Após a morte de Burton, o Metallica apenas evidenciou o problema crônico de não conceder muito espaço aos seus baixistas. Basta conferir “…And Justice for All” para não escutar absolutamente nenhum resquício do baixo de Jason Newsted (que substituiu Burton). Ainda bem que os fãs de hoje servem para consertar os pecados dos ídolos. Escute aqui a famosa versão “…And Justice for Jason”, que traz para o primeiro plano a eficiente performance gravada por Newsted, antes soterradas por dezenas de trilhas de guitarras. É quase outro disco.

Comecei a tocar baixo aos 14 anos, confesso que muito influenciado por Cliff Burton. E desde sempre notei que o preconceito para com os baixistas é quase um padrão-piada entre as bandas de garagem. “Qualquer um consegue tocar!”, “Escolheu o baixo porque só tem quatro cordas, é mais fácil!” e “Pra que aumentar o volume se ninguém escuta mesmo? Não faz diferença” são só algumas das bobagens que ouvi ao longo dos anos. Concordo que o baixo não nasceu para aparecer tanto (o nome do instrumento denota isso) e que 90% do tempo ele tem um papel secundário em faixas movidas a guitarras. Mas defini-lo como fácil e desimportante? É melhor pensar (ou ouvir) novamente.

Graças à internet, o culto ao baixo só aumenta. O YouTube é um rico depositório de instrumentistas amadores que, silenciosamente – como é o praxe entre os baixistas – têm tentado inverter o padrão vigente. Não faltam canais de jovens músicos exibindo habilidades e reforçando o papel que o contrabaixo tem na música popular. Mais do que mero exercício masturbatório, é uma tentativa honrada de trazer para o holofote um instrumento que naturalmente se colocou na função secundária em favor da eficiência da música. Assista/escute os vídeos acima e abaixo e comece a ouvir o contrabaixo com mais carinho.

***

O italiano Davie, de 20 anos, posta vídeos semanais tocando linhas de baixo consagradas e improvisos baseados em funk. Um dos trabalhos mais famosos dele é uma sequência de 100 basslines icônicas, emendadas uma na outra com a ajuda de uma bateria eletrônica.

Na esteira de Davie, Marc Najjar e Nate Bauman, da banda Royale, também selecionaram 100 linhas de baixo famosas e tocaram juntos em estúdio, dessa vez no esquema “drum & bass”. Repare como muitas coincidem com a do vídeo anterior.

Mais teórico, o canal CoverSolutions escolheu 50 introduções baseadas no baixo, sem se aprofundar muito em cada uma, mas ensinando o público a tocar com a ajuda de tablaturas.

Até o ano passado, a catalã Marta Altesa produzia vídeos tocando linhas de baixo de pop e rock, como Red Hot Chili Peppers, Stevie Wonder e Jamiroquai.

Anna Sentini é uma multiinstrumentista norte-americana que faz sucesso com vídeos tocando baixo em clássicos da Motown, além de faixas de Daft Punk, Iron Maiden e Rage Against the Machine.

Conhece outros exemplos? Aceito recomendações. O baixo agradece.