Blog do Pablo Miyazawa

Arquivo : novembro 2014

Assistimos a “Chaves” e “Chapolin” com culpa, mas para rir de nós mesmos
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Pablo Miyazawa

Nenhum programa de televisão no Brasil resume melhor a expressão “guilty pleasure” (prazer secreto) do que “Chaves”. E “Chapolin Colorado”. Porque, no fundo, ambos são a mesma coisa: mesmo elenco, mesmas piadas, mesmos cenários, mesmo criador: Roberto Gómes Bolaños, o “Chespirito”, ator mexicano que morreu hoje, aos 85 anos.

Toda criança brasileira que nasceu após a metade dos anos 1970 e assistiu à TV na infância teve contato com “Chaves” e “Chapolin”, nem que só um pouquinho ou por acidente. Desde 1984, ele foi quase onipresente na programação do SBT. Os horários mudam, mas ambos programas continuam na grade da emissora, salvo algumas interrupções (como ocorreu em 2013). Silvio Santos, sábio, sempre enxergou no produto a sua mina de ouro mais durável. Ainda hoje, “Chaves” conquista uma audiência impressionante no horário das 18h30.

Para o “Patrão”, “Chaves” sempre foi o coringa para salvar a emissora em situações críticas. Mas para o público, o seriado representava aquele alívio cômico inocente e extravasador para todas as horas. Nenhum programa do canal ficou tanto tempo no ar dependendo apenas de infinitas reprises. Poucos episódios inéditos surgiram com o passar dos anos, mas a impressão é a de que sempre assistíamos aos mesmos de sempre. “Chaves” dura pouco e não demora a se repetir. E é por isso mesmo que todo mundo acha graça (mesmo que não admita).

Estamos aqui lamentando a morte de Bolaños nas redes sociais porque não queríamos que o Chaves sofresse. Coitado, ele sempre teve uma vida bem complicada, dormindo dentro de um barril, apanhando por falar bobagens, alimentando-se de sanduíche de presunto e vivendo de esmolas e da bondade dos vizinhos. Bolaños já estava doente há tempos e não produzia material novo desses personagens desde os anos 1990. A maioria do que assistimos foi produzido ao longo da década de 1970. E, mesmo assim, é como se o criador continuasse lá em atividade. Assistimos –e rimos– daqueles episódios toscos como se tivessem sido filmados ontem.

É interessante essas sensações causadas por “Chaves” e “Chapolin”. Eles nos fazem voltar no tempo. Cada episódio traz uma sensação nostálgica indiscutível, e por motivos diferentes para cada pessoa. Em princípio, é um retorno ao passado porque tem aparência e cheiro de coisa velha, aquelas piadas gastas, as risadas enlatadas, aqueles cenários e figurinos toscos, a qualidade já sofrida das imagens e do áudio. Mas também é assistir a qualquer episódio e se lembrar de momentos da infância, quando nossas únicas preocupações eram a lição de casa e acordar cedo para fazer prova no dia seguinte. Bons tempos que não voltam mais. E cada novo contato com “Chaves” e “Chapolin” continua a representar um sopro de nostalgia a nos balançar os cabelos. Tente assistir sem encontrar alguma lembrança, ou sem dar uma risada que seja – ainda que por achar tudo muito ruim.

Fico pensando se tal fenômeno poderia ter ocorrido com uma série nacional, como “Os Trapalhões”, por exemplo. A Globo jamais apostou na longevidade e não investiu na eternização dos episódios antigos da turma de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Pelo menos não da mesma forma que Silvio Santos, que explorou “Chaves” até a última gota. É importante notar que o apelo persistente dessas séries não ocorrem só porque são transmitidas há 30 anos. A “culpa” é dos valores humorísticos ali retratados, eternos, universais e que felizmente não saem de moda.

Cada episódio traz um pacote humorístico completo feito para agradar a todos, sem restrições: a graça circense da piada física, o estilo pastelão dos palhaços clássicos (com direito a tapas na cara e croques na cabeça), as brincadeiras estúpidas de trocadilhos que todo mundo já fez no meio de uma aula de matemática. Quem se identifica com aqueles personagens é porque enxerga neles seres humanos verossímeis e autênticos. Era como se aquelas figuras absurdas existissem na vida real, na vizinhança, nas ruas, no pátio da escola. E isso é o que há de mais encantador no surrealismo narrativo criado por Bolaños: ele soube enxergar e resumir o melhor e o pior do comportamento humano em suas criações.

Nunca fui fã devoto de “Chaves” e “Chapolin”, admito. Quando a mania começou, eu já me considerava em outra. Só assistia sem querer, quando ia almoçar na casa dos amigos após a aula. Preferia desenhos animados e a “Sessão Comédia” da Globo. Mas era impossível ver até o fim sem absorver as piadas, os bordões e toda aquela mitologia esquisita. E assim foi com o passar dos anos. Hoje, compreendo a importância. Ainda mais quando percebi que a minha geração se identifica mais com o mexicano “Chaves” do que com os brasileiríssimos “Trapalhões”. Tem que haver algum mérito nisso.

Roberto Bolaños pode ter partido, mas Chaves e Chapolin jamais sairão de moda. Continuarão vivendo na TV, na internet, nas ruas, nas brincadeiras no fundo da classe. Permanecerão moleques para sempre.


O novo Star Wars ganhou um trailer, mas trouxe mais perguntas que respostas
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Pablo Miyazawa

J.J.Abrams levou ao pé da letra a ideia do “teaser” (provocação): esse novíssimo vídeo promocional de “Star Wars: The Force Awakens” – no Brasil, “O Despertar da Força” – não refrescou em nada qualquer dúvida. Pior, só serviu para gerar todo um pacote de novas perguntas aos fãs ansiosos.

Você já deve ter visto o teaser uma, duas, vinte vezes na última hora. Então se é fã, deve ter indagações parecidas com as minhas. Enumero a seguir as dez questões que mais estão me incomodando. Quem puder ajudar, é só escrever as opiniões nos comentários lá embaixo.

1. Começamos ouvindo um narrador misterioso, com forte sotaque estrangeiro (ou sou eu que não estou entendendo direito?). “There has been an awakening. Have you felt it?” (Houve um despertar. Você sentiu?). Pelo tom macabro, só pode ser um vilão. E se esse é um vilão falando, então parece certo que ele se refere ao despertar de alguma força maléfica. O lado negro?

2. Parece não haver dúvidas de que a primeira cena se passa no deserto de Tatooine, terra natal de Anakin Skywalker. Ou será que não? De repente, aos 22 segundos, bú!, o primeiro susto, para combinar com o tal “despertar”. Quem seria o soldado vestido de branco que se levanta de repente, aparentemente perdido e desesperado? Aquilo não está parecendo um uniforme de stormtrooper – e eles fizeram questão de nos provar isso mostrando as costas da armadura. A não ser que o design da armadura tenha mudado…

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3. Em seguida, um robô – uma versão turbinada das unidades R2 – desliza pelas ruas de Mos Eisley, o porto espacial de Tatooine. Dá para ver pelas sucatas de pod racer ao fundo. Mas por que tanta pressa?

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4. Em um trecho sombrio, enxerga-se um exército de stormtroopers estilo old school fortemente armados e desembarcando em algum local indefinido. Quem os juntou e os armou, e de onde vieram, se todas as tropas do Império explodiram junto com a segunda Estrela da Morte em “O Retorno de Jedi”? Daqui alguns segundos, teremos mais certeza de que o antigo arsenal do Imperador não foi inteiramente destruído. E perceba como o design dos capacetes é diferente daquele que conhecemos na primeira trilogia.

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5. A garota misteriosa a partir do momento 0:37 certamente está em Tatooine, e assim como o droid arredondado, está com bastante pressa. Mas o veículo que ela comanda é bem mais interessante que aquela carroça pilotada por Luke Skywalker no filme de 1977.

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6. Aos 0:45, enfim vemos os mocinhos – um grupo de X-wings sobrevoando um planeta esfumaçado e aparentemente gelado (uma referência à Hoth de “O Império Contra-Ataca”?). Vale notar que certos hábitos não mudam: o piloto traz o símbolo da Aliança Rebelde no capacete e ainda usa macacão cor-de-laranja. O que não deu para ver: será que as naves ainda utilizam unidades R2 acopladas?

piloto

xwings

7. Nos 0:50, o trecho mais intrigante do teaser. Alguém encapuzado – de quem só enxergamos as costas – vaga de maneira decidida por uma floresta sombria, até mostrar que não está para brincadeira, sacando um sabre de luz vermelho com duas “lâminas” horizontais extras (brincadeiras sobre a natureza fálica da espada em 3, 2, 1…). Em princípio tendo a arriscar que aquele seria Luke Skywalker, que de acordo com as teorias de fãs, estaria desaparecido há muito tempo. O fato de a voz misteriosa dizer “the dark side… and the light” (mas que sotaque alemão é esse?) só aumenta minhas dúvidas. Estaria o narrador se referindo a alguém dividido entre os dois lados da Força?

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8. Agora sim, a cena que fez os fãs de carteirinha se arrepiarem. A Millenium Falcon, espaçonave mais adorada da saga, surge apressada, dá rasantes por um deserto (novamente, Tatooine?) e encara dois caças TIE-Fighter, as tradicionais naves de combate corpo-a-corpo do Império. Se restava alguma dúvida sobre o retorno do antigo Império Galáctico (ou de sua engenharia) em “The Force Awakens”, esta cena resolve a questão. Ou será que não? Outra dúvida: quem será que está pilotando a Falcon com tanta destreza? Han Solo? Eu espero que sim.

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9. Bem no finalzinho, no trecho 1:25, escutamos o característico som de um sabre de luz sendo acionado. Qual a necessidade disso?

10. Falta muito para 17 de dezembro de 2015?


Batman encarando Darth Vader com um sabre de luz? Esse filme eu queria ver
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Pablo Miyazawa

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Quem diria que o Batman carrega um sabre de luz no bat-cinto de utilidades? (Foto: Reprodução)

Quem gostaria de assistir a um crossover entre o universo ”DC“ – de Batman e Superman – e a mitologia “Star Wars” no cinema? Confesso que sim, eu gostaria.

Em se tratando da indústria do entretenimento, não dá para duvidar de mais nada hoje em dia. Qualquer mistura é possível quando o objetivo é renovar séries decadentes, movimentar rios de dinheiro e angariar plateias. Mas graças à internet e à criatividade de artistas independentes, essas ideias malucas podem sair do campo da teoria. E melhor ainda, atiçando a imaginação dos fãs sem irritá-los e sem forçação de barra.

O vídeo ali abaixo mostra o que aconteceria se o Batman e o Darth Vader se encarassem em uma batalha mortal com sabres de luz. Mais do que isso não dá para contar. Só o que você precisa saber é que é um filme não-oficial, ou seja, foi produzido por uma produtora independente norte-americana chamada Bat in the Sun, liderada pelo cineasta amador Aaron Schoenke, de 30 anos.

Nerds até a medula, apaixonados por detalhes e absurdamente talentosos, os caras da Bat in the Sun produzem de tempos em tempos a webserie “Super Power Beat Down”, curtas de live-action em que misturam heróis de universos distintos em quebra-quebras mortais. Se as interpretações não são lá essas coisas, chama a atenção a altíssima qualidade dos efeitos especiais, que quase em nada ficam devendo às produções hollywoodianas de alguns anos atrás.

Eles já colocaram o Batman contra o Wolverine. O Wolverine contra o Predador. O Gandalf contra Darth Vader. O Master Chief contra o Capitão América. E agora é a hora do Homem-Morcego e o Lord Negro dos Sith.

Confira, vale a pena. E torça para o próximo filme “Star Wars” (que aliás tem um teaser novo divulgado hoje) ter uma vibração no mínimo parecida.


Ele vendeu pulseirinhas por Paul McCartney. E conheceu o ídolo em pessoa
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Pablo Miyazawa

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Acenando, Paul mostra a pulseirinha de Matheus no punho esquerdo. (Foto: Marcos Hermes/Divulgação)


O menino Matheus Bustamante Battiato conseguiu tudo o que sonhava – e mais.

O começo da história você leu antes aqui: o garoto paulistano de 10 anos produziu pulseirinhas de plástico e as vendeu pela internet para levantar dinheiro para ir ao show de Paul McCartney. Após arrecadar a verba e comprar os ingressos, Matheus foi mais longe ainda. Conheceu Paul McCartney e entregou pessoalmente ao beatle uma das pulseirinhas. Para fechar a história surreal com chave de ouro, Paul usou o enfeite verde e amarelo no punho esquerdo durante todo o show de quarta (26), o último da turnê no Brasil.

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A inconfundível mão de Paul (Marcos Hermes)

A saga de Matheus teve final feliz graças à persistência da tia dele, Danila Bustamante. Utilizando uma rede de contatos e um tanto de insistência, ela conseguiu que a campanha do sobrinho chegasse aos ouvidos da equipe de produção dos shows. Minutos antes da apresentação, Paul recebeu a dupla empreendedora no camarim. Matheus presenteou o músico com uma de suas pulseirinhas. O ídolo já os esperava e agradeceu, os abraçou e conversou com o jovem fã por cinco minutos. Após o show, Danila me fez um relato exclusivo de todo o acontecimento, que publico abaixo:

“É engraçado que falávamos de conhecê-lo, como seria, o que podíamos dizer de legal, mas sempre foi um sonho. Quando surgiu a possibilidade através da produção dele no Brasil e dele de fora, nós congelamos. Não pensamos direito como seria, o que falaríamos, como reagir.

Esperamos super umas duas horas, e quando faltavam 15 minutos para o show começar, o produtor veio e disse: “You are a lucky boy!” e falou que entregaríamos as pulseirinhas em mãos. Fomos levados para uma salinha no backstage, estavam lá o fotógrafo oficial e a equipe. Todos disseram: ‘Calma que ele é calmo’. Num piscar, ele chegou e disse: ‘Hum, Matheus, you are the bracelet boy! And you?’. Eu disse: ‘I´m the aunt’. E ele: ‘The super aunt!’. Emoção total!

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Danila e Matheus, antes do show e do encontro com Paul. (Foto: Carolina Bustamante)

Paul parabenizou o Matheus pela iniciativa, e eu falei que ele trabalhou duro para conseguir produzi-las e vendê-las. Paul disse: ‘Very smart, very intelligent. Continue fazendo e não pare, não podemos parar’. Entregamos as pulseirinhas, ele escolheu a verde-amarela e colocou na hora. Perguntei se cabia no braço dele, e ele, super tranquilo: ‘Ah, super cabe’. Conversamos mais e o Matheus disse: ‘I love you, Paul’. Eles se abraçaram, fizeram um ‘joinha’ para a foto [que foi tirada pelo fotógrafo oficial MJ Kim e que gostaríamos muito de ter] e desejamos ‘good luck’ para o show. Ele agradeceu e disse pra gente mandar bala sempre!

Ele sabia de tudo antes de chegarmos. Sabia que nós tínhamos vendido muitas pulseirinhas e que tínhamos trabalhado muito, que o Matheus tinha aparecido em vários veículos. Ele se sensibilizou porque disse que é preciso trabalhar muito pra se conseguir o que quer. O plus foi ele ter usado a pulseirinha o show inteiro! Ele foi um lord, com certeza. Poderia ter deixado de lado o presente, ter dado pra produção.. Mas ele colocou na hora e fez o show todo com ela.”

E emocionado como não poderia deixar de estar, Matheus declarou em seguida que foi “o momento mais incrível da minha vida”. Realizar uma proeza dessas não é mesmo algo que acontece todos os dias quando se tem 10 anos de idade…


Um adeus a Paul McCartney (já esperando que ele volte em breve)
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Pablo Miyazawa

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Paul em São Paulo, em 25 de novembro. A chuva foi só um detalhe. (Foto: Marcos Hermes/Divulgação)

Foi-se o “Hello”, chegou a hora do “Goodbye”. Paul McCartney está indo embora.

Na noite de terça, 25 de novembro, o incansável beatle fez em São Paulo seu décimo-nono show em território brasileiro. Mesmo com a chuva insistente, foi ótimo, completo e emocionante. Como sempre.

Assistir Paul ao vivo é um espetáculo que não tem erro. Ele nunca me decepcionou. O show de ontem marcou a quinta vez em que vi o ao vivo (sexta, se contar a vez que ele apareceu de surpresa em um evento da Microsoft em Los Angeles, para anunciar o game “Beatles: Rock Band”). E continuo a achar que não é o suficiente. Conheço gente que já viu uns 20 shows dele nos últimos cinco anos. Não acho que seja exagero.

Na noite dessa quarta, ele completa vinte shows no Brasil e finaliza aqui a turnê nacional que passou antes por Espírito Santo, Rio de Janeiro e Brasília. Desde 2010, Paul tem vindo ao país todos os anos. Nada mal para quem ficou 17 anos sem dar as caras. Nenhum artista do porte e longevidade dele foi visto tantas vezes por tantos brasileiros. Há uma exceção torta: os Rolling Stones de Mick Jagger e Keith Richards fizeram oito apresentações por aqui, mas somente em São Paulo e no Rio, sendo que a última, gratuita e na Praia de Copacabana, foi vista por mais de um milhão de pessoas. Detalhes, detalhes.

Dá para falar que quem já viu um show recente de Paul McCartney viu todos? Dá. Eles são tecnicamente idênticos, salve umas músicas trocadas e alguns acidentes de percurso. Era esse o assunto na sala de imprensa ontem: a gente fica torcendo para que alguma coisa diferente aconteça, já que tudo segue o script à risca. Até as frases antes de cada música, as poses e as caretas são parecidas. Não que estejamos reclamando.

Às vezes, acidentes ou surpresas até acontecem. Em 2010, no final do show em São Paulo, o astro tropeçou e caiu de ombro no chão. Quem acompanhava o telão percebeu e teve dó. Em 2013, em Fortaleza, um casal de noivos foi abençoado por Macca de cima do palco. No mesmo ano, a apresentação de Goiânia foi invadida por uma nuvem de gafanhotos que decidiram fazer parte do cenário. Paul não se abalou e tocou diversas músicas com um inseto pendurado no ombro, a quem batizou de “Harold”. Consegui registrar o momento sublime e único com minha câmera de bolso.

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Em Goiânia (2013), Paul cantou e fez amigos – repare no ombro direito dele. (Foto: Pablo Miyazawa)

Um amigo jornalista resumiu bem a situação: “Paul nunca é demais”. E como disse um outro amigo, Paul McCartney não é apenas carismático – ele inventou o carisma. Nenhum músico se dá tanto ao trabalho de parecer simpático e grato por estar lá em cima, apresentando sua arte e recebendo aplausos. Não tem tempo ruim com ele, literalmente – não foram os poucos shows que fez por aqui debaixo de chuva forte. É claro que ele pouco se molha estando em cima do palco coberto, mas assim mesmo, nada parece abalar a energia do homem. Lembrando que estamos falando de um cara de 72 anos de idade que se apresenta em público desde antes de completar 18 anos de idade. São pelo menos 55 anos de vida batendo cabeça e gastando dedos em cordas de aço e a garganta diante de um microfone.

E por falar em voz, o que dizer da voz de Paul McCartney? Ele continua cantando como se o tempo não tivesse passado para ele. A sonoridade é potente e característica, e engrossou pouco com o passar dos anos. Ele ainda arrisca agudos sem jamais perder a afinação nem fazer feio. A banda é muito competente e segura as pontas, mas a performance de Paul, seja no baixo, na guitarra, no piano ou no violão (e até no ukelele), ainda é irrepreensível. Ele faz tudo aquilo parecer fácil.

E ele ainda apresenta as mesmas músicas de sempre sem demonstrar preguiça, porque ele sabe que é o que a maioria quer ouvir. Quantas vezes Paul já tocou faixas do início dos Beatles como “All My Loving”, “I Saw Her Standing There” e “Paperback Writer”? Milhares? E outras mais épicas e emocionais como “Let it Be”, “Hey Jude” e “Yesterday”? Podemos ouvi-las sempre que jamais envelhecem nem ficam cafonas demais. Com um repertório desse a disposição, realmente Macca não precisaria se preocupar com coisa alguma. Poderia bem passar mais 50 anos repassando as mesmas coisas, que os estádios continuariam lotados e a adulação seria a mesma. Os fãs mais chatos até adorariam presenciar outras músicas, mas não temos o direito de reclamar. Em se tratando de artistas clássicos ainda em plena atividade, não existe melhor setlist na história do rock, e provavelmente nunca haverá.

Há quem diga que está foi a última vez que vimos Paul McCartney ao vivo no Brasil. Teria sido esta a última grande turnê mundial do roqueiro mais eterno a ainda caminhar sobre a Terra? Eu não quero crer nisso. Prefiro imaginar que ele sempre estará por aí, se esgoelando em “Helter Skelter”, chacoalhando o baixo Hofner em “Back in the U.S.S.R.”, martelando o piano em “Let it Be”, tudo como se fosse a primeira vez. Volte em breve, Paul. Já estamos prontos para outra visita.


Há 40 anos morria Nick Drake, o homem mais triste da música
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Pablo Miyazawa

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Como será que Nick Drake (à esq.) lidaria hoje com o sucesso? (Foto: Reprodução/Facebook Oficial)

A tragédia musical de Nick Drake. Talvez você conheça muito bem essa história. Ou talvez nunca tenha ouvido falar dela. A segunda opção é a mais provável, ainda que aos poucos a situação esteja mudando. E é por isso que vale a pena falar a respeito.

Essa trama real pode ser resumida em poucas linhas. Nick Drake foi um excepcional cantor e compositor de origem britânica que lançou três belos discos de folk music em meados da década de 70 e permaneceu desconhecido até morrer jovem demais, em 1974. Décadas depois, tem sido redescoberto e vem ganhando cada vez mais fãs devotos. Hoje, ele é uma espécie de herói cult da música indie.

E se é para falar em hipóteses, talvez também seja injustiça chamar de “azarada” a trajetória da carreira de Nick Drake. Ele morreu na madrugada de 24 para 25 de novembro de 1974, há exatos 40 anos, vítima de uma overdose de remédios que usava para tratar um quadro agudo de depressão.

Essa saga se torna mais triste quando sabemos que Drake era morbidamente introspectivo, um tímido incorrigível, que não conseguia lidar com o fato de sua carreira ter sido um fracasso de público. De tão outsider que foi em vida, a ironia quis que ele nem pudesse entrar no mítico “clube dos 27”, que engloba ícones caídos como Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Brian Jones e, mais recentemente, Kurt Cobain e Amy Winehouse. Nick Drake morreu aos 26 anos, sete meses antes de completar os fatídicos 27.

pinkmoonEm 1969, quando tinha 20 anos e nenhuma experiência, Drake assinou contrato com a gravadora Island. Lançou três discos em um período de quatro anos, “Five Leaves Left”, “Bryter Layter” e “Pink Moon”. Nenhum vendeu mais de 5 mil cópias na época. Como artista emergente que era, ele também pouco facilitava: quase nunca dava entrevistas, não fazia shows e nem aparecia em programas de TV. Simplesmente não há cenas em video dele adulto (pode buscar no YouTube). Tudo isso contribuiu para reforçar a aura de mistério em torno de sua figura tão sombria e desconectada. Tudo o que existe de registro visual da existência dele são fotos de infância e poucas fotografias a que se permitiu posar para promover os discos. Sonoramente, porém, Drake deixou um material vasto e maravilhoso.

Nick Drake nasceu na Birmânia (ou Burma na época, hoje Myanmar), filho de pais ingleses, e se mudou para a Inglaterra em 1950, quando tinha apenas 2 anos. Começou a tocar piano ainda criança, por influência da mãe, que cantava e compunha não-profissionalmente. Formou bandas na adolescência, passou a tocar violão, morou fora para (mal) frequentar a faculdade, usou drogas e começou a tocar composições próprias na cena noturna de Londres. Foi descoberto por um produtor e gravou “Five Leaves Left”, um disco solo que não deu em nada. O mesmo aconteceu com o álbum do ano seguinte.

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“Fácil” não é uma boa medida para definir a música de Nick Drake. Mas “melancolia” é certamente a palavra que melhor representa o trabalho dele que se tornou simbólico mais tarde, o nublado “Pink Moon”. Com alto grau de sensibilidade e lirismo cru, o disco é construído apenas com um violão belamente dedilhado que faz a única cama para a voz, contida, sussurrada e reflexiva. É de doer de tão triste, e bonito como poucas canções de voz e violão já conseguiram ser.

Não faça comparações com o antigo Bob Dylan: Nick Drake não cantava sobre política e sociedade, nem queria mudar o mundo com suas canções. Ele também não sabia falar sobre sentimentos profundos e pessoais, e utilizava simbolismos ligados à natureza e ao bucolismo para se expressar como um observador remoto e pessimista. Suas músicas não tinham refrão e eram normalmente conduzidas por alguma frase de violão repetida à exaustão. Além disso, Drake cantava lindamente, ainda que em um estilo pouco melódico, e as habilidades com dedilhados e as afinações alternativas ainda hoje são consideradas impressionantes. A influência de bossa nova nunca foi oficialmente comprovada, mas pode ser sentida na soturna utilização do silêncio e no modo sutil como a voz e o violão percorriam caminhos distintos.

Terceiro e derradeiro álbum, “Pink Moon” foi produzido em 1971, durante um estado crescente da depressão, quando Drake já vivia isolado em Londres e pouco se comunicava com o mundo ao redor. Ele terminou a gravação em dois dias, apenas com ajuda de um engenheiro de som, sem overdubs ou outros instrumentos além do violão e um piano martelado que faz o solo da faixa-título. Lançado em fevereiro de 1972, com 11 faixas e apenas 28 minutos, é um dos mais sublimes trabalhos já registrados por um músico sozinho. Clique no vídeo abaixo para escutá-lo (e faça o favor de usar fones de ouvido e não se distrair com qualquer outra coisa).

Mesmo com um impulso promocional da gravadora, “Pink Moon” também fracassou. Com mais uma frustração nas costas, Drake desistiu da carreira e passou a morar na casa de campo dos pais no norte da Inglaterra. O comportamento era cada vez mais errático e introvertido, com a depressão chegando a níveis perigosos – alienado e infeliz, Drake vagava como um zumbi e deixava em estado de alerta quem o conhecia. Só no inicio de 1974, mostrou ter recuperado um pouco do gosto pela vida e chegou a voltar a compor. Parecia animado a tentar mais uma vez. Mas não deu tempo. Após uma noite aparentemente normal, a mãe o encontrou morto na cama. Jamais ficou comprovado se Nick se suicidou, ou se a morte por overdose de medicamentos prescritos foi mesmo acidental.

Há alguns anos, a irmã, Gabrielle Drake, declarou que prefere acreditar que a morte não foi causada por um erro de cálculo. “Eu pessoalmente prefiro achar que Nick cometeu suicídio. Prefiro que ele tenha morrido porque quis do que pelo resultado de um erro trágico. Isso para mim teria sido terrível..

Demorou anos para que o nome de Nick Drake viesse à tona pelos motivos certos. Compilações ressuscitaram a música perdida, e aos poucos os discos originais foram relançados. No auge da era do CD, um séquito de fãs dedicados começou a despontar. Artistas consagrados passaram a citá-lo como influência. No universo da música alternativa, Drake era o segredo bem guardado que aos poucos começava a se espalhar. Reportagens e biografias foram publicadas. E em 1999, a melhor de suas canções foi usada como tema de uma premiada propaganda de carro.

No comercial, intitulado “Milky Way” (veja acima), quatro jovens passeiam em um Volkswagen Cabrio sob um céu estrelado ao som de “Pink Moon”. O resultado é incrível, e além de angariar novos admiradores ao finado artista, ajudou a modificar as opiniões de alguns críticos sobre a utilização de músicas para fins promocionais. Foi o sucesso tão tardio, repentino e merecido de “Pink Moon” que consolidou Drake como um gênio a ser redescoberto, consumido e decifrado.

É algo triste imaginar que hoje Nick Drake seria tão venerado e seus shows seriam considerados verdadeiros rituais religiosos, como já aconteceu com tantos artistas injustiçados e tirados do limbo. Ainda mais se pensarmos que durante a curta carreira de pouco mais de cinco anos, ele adquiriu uma crescente aversão a se apresentar, por conta da timidez e do desconforto causado pela depressão que sempre o acompanhou. Não há dúvidas de que essa circunstância, entre outras, resultaram no fato de Nick Drake ser ignorado em vida para só receber os aplausos merecidos quando já não estava mais aqui para recebê-los. Se ainda estivesse vivo, será que ele estaria confortável com tanta adulação? E se a trajetória dele não tivesse contornos tão trágicos, será que um dia a música que criou seria valorizada?

Nada disso importa mais. Ainda que tenha demorado tanto, o mundo continua a redescobrir Nick Drake. E não tenho dúvidas de que ele finalmente teria ficado feliz. Antes tarde do que nunca.


O retorno do “cavaleiro de Jedi” Edu K; escute a nova música “Valley Girl”
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Pablo Miyazawa

Edu K contra-ataca.

O músico gaúcho mais camaleônico da música brasileira sempre esteve por aí, fazendo de tudo um pouco e sem nenhuma fidelidade a estilos ou tradições. Ele surgiu liderando a maldita e esquizofrênica banda Defalla, na Porto Alegre dos anos 1980. Quem não se lembra dos shows no Hollywood Rock, em 1993, em que ele cantou pelado e com mechas de lã cor de rosa coladas na cabeça?

Nos anos seguintes, Edu K investiu em uma carreira solo de batidas dançantes, teve um hit nonsense em 2005 novamente com o Defalla (“Popozuda Rock N’ Roll”, da insuperável estrofe “eu tenho a Força, Cavaleiro de Jedi, então vem, popozuda, vai, vai”) e tem atacado de DJ e produtor (trabalhou nos discos mais recentes dos também gaúchos Cachorro Grande e Comunidade Nin-Jitsu). Ele também está na televisão, apresentando o reality show “Breakout Brasil”, do canal Sony.

Agora, para se reinventar mais uma vez, é a vez do EP “Boy Lixo”, que Edu K lança no fim da tarde desta terça-feira. O disco feito para dançar investe no trap, a vertente recente mais esquisita e eletrônica do hip-hop (pense no onipresente meme “Harlem Shake” para ter uma vaga ideia). Ouça a seguir – e exclusivamente neste blog – “Valley Girl”, uma das quatro faixas do mini-álbum. E mais tarde entre aqui para escutar o restante do trabalho.


Entrevista: Real Estate apresenta no Brasil um dos melhores discos de 2014
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Pablo Miyazawa

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Real Estate (e Mondanile ao centro): apenas uns caras normais. (Reprodução/Facebook Oficial)

Hoje, 20 de novembro, tem show do Real Estate em São Paulo.

Para quem não conhece, é um grupo formado em Nova Jersey que lançou um dos melhores (e mais tranquilos) discos de 2014, “Atlas”. Dá para chamar de indie, dream pop, jangle pop, do que quiser (eu pessoalmente detesto rótulos). Eu só consigo definir a música do Real Estate como fácil de agradar a qualquer um que aprecie melodias tranquilas, guitarras dedilhadas e  um clima etéreo e de constante calmaria. Sem dúvidas, é música para baixar a bola, e não para estimular a adrenalina.

Hoje, quatro dos cinco integrantes vivem no Brooklyn (Nova York), enquanto um deles vive em Los Angeles. Conversei exatamente com esse cara, Matt Mondanile, guitarrista e um dos fundadores do Real Estate. Transcrevo a seguir trechos da entrevista que fiz no último sábado, dias antes dos caras pousarem aqui para dois três shows no Brasil – além de São Paulo (hoje, no Beco 203), tocam também na sexta (21) em Porto Alegre (Beco 203) e no domingo (23) no Rio de Janeiro (Circo Voador). (o show do Rio foi cancelado, desculpe a falha). Corra, que ainda tem ingressos.

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“Atlas” é um dos discos mais celebrados de 2014. É interessante a naturalidade com que ele soa, traz uma sensação de amplitude, de disco ao vivo. Como funcionou o processo de composição?
Matt Mondanile: Bom, começamos a gravá-lo no começo do ano passado. Martin [Courtney], o vocalista, escreveu a maioria das músicas, e aí eu inventei as partes de guitarra pra elas, e o baixista [Alex Bleeker] veio e fez as dele. Nós ensaiamos muito até chegar ao ponto em que começamos a tocar com a banda toda, com o teclado e a bateria. Quando chegou a hora de entrar no estúdio, estávamos muito preparados e foi mais fácil de gravá-las. E sim, gravamos tudo ao vivo, e essa é a razão para o disco soar tão natural, o que é legal.

Quando vocês gravavam, chegaram a pensar: “Esse disco está saindo bom”? Ou não dava para saber o que esperar?
Um pouco dos dois. Algumas músicas, a gente não sabia no que ia dar. Mas você vai lá e faz o melhor que pode. Acho que todo mundo estava bem empolgado durante as gravações. Não dava para saber como sairia pelo menos até o finalzinho, então…

Algumas músicas são mais curtas do que deveriam ser. Aliás, o disco como um todo é muito curto, nem chega a 40 minutos.
Eu acho que só queríamos soar concisos. Se você nos assistir ao vivo, verá versões mais longas das músicas, com improvisos. Mas no disco nós fizemos uma versão concisa. Decidimos isso enquanto gravávamos: não queríamos que as coisas durassem muito ao ponto de ficar chato.

Você vive na Costa Oeste e o resto da banda vive do outro lado do país. Como funciona essa dinâmica para você? Não dá para ter uma vida lá muito normal.
É muito verdade. É super difícil ter uma vida normal estando na banda. Acho que mudar para a Costa Oeste foi bom para mim, porque eu queria muito morar aqui. E quando pego o avião para encontrar o grupo, a gente se junta na mesma cidade em que vamos tocar, já que não precisamos mais ensaiar. Então, é frenético – viajar quase toda semana, vivendo para voar. Mas gosto de viver em Los Angeles porque o clima é ótimo e o custo de vida é bem mais em conta para mim.

O Real Estate apresentou todas as faixas de “Atlas” em Nova York, em março passado. Veja o vídeo abaixo:

Você tem outro projeto, o Ducktails. Como faz para conciliar o Real Estate com seus negócios próprios? É difícil fazer algo seu enquanto se está viajando tanto com a banda principal?
É interessante, porque notei que é difícil mesmo balancear as duas coisas. Eu comecei a trabalhar em umas músicas no fim do ano passado, quando me mudei pra L.A., e só agora estou as terminando porque ando viajando muito. Então leva bem mais tempo do que antes, e faz você pensar: “Putz, o que estou fazendo não é bom.“ Eu percebi que não é bem assim – é difícil mesmo. E só agora estou conseguindo terminar umas faixas no estúdio. A ideia é finalizar o disco até o fim do ano ou começo do ano que vem e lançá-lo em maio. Mas é muito bom quando enfim se consegue equilibrar as coisas.

Você nasceu em 1985, então tem 29 anos. Que tipo de música você cresceu ouvindo? Deu tempo de escutar o Nirvana enquanto o Kurt Cobain ainda estava vivo?
Sim, eu cresci ouvindo essas bandas. As primeiras coisas de música que ouvi foram Ace of Base, Green Day, Beach Boys, Van Halen, eu era muito novo. Daí entrei no rock clássico, Led Zeppelin, coisas assim. Daí no ensino médio comecei a ouvir Weezer, Radiohead, Built to Spill, Modest Mouse, música indie. E no fim da escola eu só ouvia coisas experimentais e obscuras, noise, free jazz, John Cage, coisas esquisitas. Foi sair da escola para a voltar para o rock que eu gostava. Atualmente euouço todo tipo de música.

Você sente que, para a geração atual, os pré-adolescentes de hoje, as referências ainda são as bandas antigas dos anos 70 a 90? Não acha que as bandas de hoje não estão se tornando referências para a molecada?
Eu não acho. O que tenho visto recentemente é que, quando encontro gente nos shows do Real Estate, muitos garotos chegam e dizem: “Vocês são o motivo para eu ter começado a tocar guitarra”. Isso é muito legal e inspirador, e é o tipo de coisa que eu diria para, tipo, o Weezer, quando eu era mais novo. Às vezes você encontra uma banda que te faz querer fazer sua própria música. E essa é a única coisa que posso esperar dos fãs do Real Estate – inspirá-los a criar sua própria música. Com certeza ainda existem bandas de rock que inspiram a molecada.

Qual a idade média do público no show de vocês?
Acho que é uma gama diferente. Vai de 18 a 30 e poucos, até os 40 anos. Então temos um público bem diversificado. Outros artistas indie como o Mac Demarco tem um público mais jovem, mas nós temos todo tipo de gente.

É a sua primeira vez no Brasil, certo? Não sei se você imagina o que esperar daqui, o tipo de gente que vai ver, os lugares que irá conhecer. Qual é a sua ideia do país?
Não sei, não tenho nenhuma ideia. Nunca estive aí, mas quero ir. Estou empolgado para conhecer a América do Sul de um modo geral.

Como é ser o cara solteiro da banda? Os outros são casados, mas você não é, certo?
Não sou casado. Para falar a verdade, eu me mudei para Los Angeles para ficar com alguém, e nós terminamos recentemente. Ela é uma artista da [gravadora] Domino, a Julia Holter.

Desculpe, eu não sabia disso.
Sem problemas. Você pode publicar isso, é interessante. O negócio é que eu queria realmente estar num relacionamento com alguém que tivesse uma rotina parecida, que viajasse… Que tivesse um estilo de vida parecido com o meu. Mas aí você percebe que isso é mais difícil, porque você nunca vê a pessoa, já que estão os dois sempre viajando. Então é muito difícil estar em um relacionamento quando se viaja tanto.
Mas é legal ver que o Martin está numa relação há tanto tempo. Ele conheceu a esposa na época da escola, então já se conheceram antes de começarmos a fazer turnês com a banda. Eles passam muito tempo juntos e se entendem muito bem. É uma situação única. Agora que estou solteiro, está tudo bem. É divertido, eu gosto.

Você conhece seus parceiros de banda, Martin e Alex, desde a adolescência. Como está a relação de vocês hoje, que todos são crescidos, têm responsabilidades? Como a amizade evoluiu?
É ótima. Nós trabalhamos juntos, mas continuamos amigos. Eu gosto de viver em Los Angeles porque me dá a distância do lugar onde os caras vivem e de onde vivi a vida toda. A minha família é de Nova Jersey, então… É bom ter essa distância.

Então o fato de viver longe é bom para não se aborrecer com seus companheiros. Porque a vida na estrada pode ser um porre, não?
Pode ser um porre, mas na verdade é divertida se você fizer ela ficar divertida. Quando é um porre, fica difícil viajar. Mas é legal.

E como você a faz ficar divertida?
Você conversa com as pessoas, mantém o bom humor e não leva qualquer coisa para o lado pessoal. E tenta fazer a música o melhor que puder.

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E veja aqui o Real Estate convidar Rivers Cuomo do Weezer ao palco de um festival em Los Angeles na terça-feira passada, para uma versão fiel até demais de “No Other One”, do clássico disco “Pinkerton”.

(Aliás, foi com esse cover que o Real Estate encerrou o show de hoje em São Paulo).


A nova música do Faith No More ajuda a trazer de volta a fé no rock
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Pablo Miyazawa

fnm

O Faith No More em Moscou, em 2012: o disco novo já está pronto (Reprodução/Facebook Oficial)

O Faith No More voltou mesmo.

E adiantaram para hoje o lançamento do novo single, “Motherfucker”, que seria lançado no fim de novembro.

O novo disco, ainda sem nome, será lançado só em abril. Será o primeiro do quinteto desde “Album of the Year”, que saiu há… 18 anos. Sim, o tempo passa. Mas parece que passa diferente para Mike Patton, que continua cantando tanto como quando entrou no Faith No More, há 25 anos. E a música, bem… É Faith No More até a medula – teclados soturnos, guitarras rasgadas, vocais épicos, sensação de fim do mundo. Lembra mais o clima tenso do último disco do que a vibração febril e tão noventista de “The Real Thing” e “Angel Dust”.

Escute “Motherfucker” abaixo e fique mais esperançoso sobre o rock em 2015.

E aproveite e veja uma versão ao vivo do novo single, gravada em julho desse ano em Londres.


Chico Buarque é um escritor que merece ser lido
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Pablo Miyazawa

Posso falar sobre Chico Buarque?

Você pode não ligar para a música dele há muito tempo, mas as palavras que ele diz e escreve permanecem relevantes. E Chico acabou de lançar um livro, “O Irmão Alemão”, o quinto romance dele desde 1991.

No livro, o personagem principal se chama Francisco de Hollander, é filho do historiador Sergio de Hollander e passou a vida procurando por um meio-irmão alemão, fruto de um relacionamento que seu pai teve quando morou em Berlim. Descontando a grafia diferenciada do sobrenome, todos esses fatos são verdadeiros também para o próprio Chico – ou Francisco Buarque de Holanda, para os íntimos.

Poderia até ser uma história autobiográfica, mas “O Irmão Alemão” é mesmo um romance de ficção. Mas as coincidências com a realidade são tantas que as dúvidas permanecem ao longo de toda a leitura. Será que o que Chico relata aconteceu mesmo?

E misturando a verdade com a invenção de modo primoroso e sem nos facilitar, Chico escreveu um livro que merece ser lido por qualquer um que adore boas histórias, mas também por quem não resiste a descobrir o quanto há de verdade por trás dos fatos inventados.

Leia minha crítica de “O Irmão Alemão” aqui.